sexta-feira, 10 de novembro de 2017



Fonte:
http://www.greenpeace.org/brasil/pt/O-que-fazemos/agricultura-alimentacao/



Um modelo esgotado

Há vinte anos, o Greenpeace expõe e questiona o modelo agrícola praticado no Brasil. As sementes transgênicas, os agrotóxicos, a expansão da agropecuária sobre a Amazônia e os impactos climáticos da nossa produção comprometem o futuro da nossa alimentação e do planeta. Não temos escolha: é urgente e necessária a mudança para uma outra agricultura, que produza alimentos de maneira ecológica e socialmente justa, para cidadãos cada vez mais preocupados com sua saúde e a saúde do planeta.

O modelo global de produção, distribuição e consumo de alimentos precisa ser revisto, e com urgência. No mundo, quase 800 milhões de pessoas ainda passam fome, enquanto a obesidade e o sobrepeso atingem 1,9 bilhão de pessoas. De fato, nunca produzimos tanta comida, ao passo que o futuro desta produção nunca foi tão incerto – o uso intensivo de agrotóxicos e de recursos naturais (solo e água, por exemplo), a expansão da fronteira sobre matas nativas e a enorme contribuição da agropecuária para as mudanças do clima colocam em xeque esse modelo insustentável e desigual.

O Brasil é um país simbólico, tanto do ponto de vista do problema quanto de sua solução. Por aqui, a produção convencional cresceu exponencialmente ao longo das últimas décadas, via de regra esgotando recursos naturais que garantem a própria sustentação das lavouras. A agropecuária brasileira é a campeã mundial em uso de agrotóxicos, representa mais de um terço das emissões nacionais de gases de efeito estufa e é a principal responsável pelo desmatamento da Amazônia e do Cerrado.

Por outro lado, houve grandes avanços na solução agroecológica no Brasil. A despeito deste modelo historicamente receber uma parcela ínfima dos investimentos públicos e privados, estabeleceu-se uma rede ampla de produtores ecológicos que se integram às paisagens, conservam o solo e os mananciais, se adaptam à seca e produzem comida – muita comida. Além disso, a sociedade civil organizada ampliou a pauta agroecológica no Brasil, seja nas políticas para a produção, na oferta de alimentos saudáveis para consumo ou nas compras públicas de alimentos orgânicos. São passos sólidos em direção ao necessário futuro de um novo modelo de produção de alimentos.


Comida envenenada


Produtor aplica agrotóxicos em sua plantação. Atualmente, o Brasil é o maior consumidor de agrotóxicos do mundo. © Ángel Garcia / Greenpeace

Todos nós consumimos agrotóxicos. Eles estão nos alimentos que comemos, na água que bebemos, na roupa que vestimos. A agricultura brasileira é hoje dependente de herbicidas, fungicidas e inseticidas, aplicados com baixo controle e com alto impacto a quem produz e a quem consome. É alarmante que o Brasil seja o país onde mais se aplica agrotóxicos no planeta.


Segundo o último Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxico(PARA), organizado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), foram detectados resíduos em 67% de todos os alimentos testados – alimentos do nosso dia-a-dia, do nosso almoço e jantar, da sopa das crianças. Das amostras com resíduos, quase 40% contêm agrotóxicos não autorizados ou acima de limites máximos, fato destacado pelo Instituto Nacional do Câncer (INCA), que, em nota, se posicionou oficialmente pela produção de alimentos sem agrotóxicos.

No meio ambiente, a aplicação de veneno impacta os solos, as fontes de água, a flora e a fauna ao redor das plantações. A esterilização provocada pelos agrotóxicos causa desequilíbrios ambientais gravíssimos, que aumentam a proliferação de “pragas” e reduzem a produtividade agrícola. Tal cenário provoca o uso de ainda mais produtos químicos, numa espiral insustentável – mas lucrativa para as empresas do ramo. Um exemplo dramático do impacto ambiental dos agrotóxicos é a redução da população de abelhas, responsável pela polinização de 73% das espécies vegetais cultivadas no mundo (incluindo espécies comerciais como o café e a laranja).



Emissões da agropecuária: um tiro no pé


O gado é responsável por boa parte das emissões globais de gases de efeito estufa (© Cheryl-Samantha Owen / Greenpeace)

Segundo o último cálculo disponibilizado no Sistema de Estimativa de Emissão de Gases de Efeito Estufa (SEEG) do Observatório do Clima, a agropecuária é responsável por 32% das emissões brasileiras. Considerando que ela é a principal atividade que desmata no Brasil, e que a mudança no uso do solo representa cerca de 42% das emissões, é possível afirmar que a agropecuária brasileira é responsável, direta e indiretamente, por 74% de todas as emissões do País.


Ao longo das últimas décadas, expandimos nossas fronteiras para a produção de carne bovina (sobretudo na Amazônia) e soja e milho para a alimentação animal. O desmatamento, o gás metano produzido pela digestão do gado e a aplicação de adubos e fertilizantes sintéticos nessas culturas lideram o impacto climático da nossa produção.

Por outro lado, a agropecuária é a principal vítima do aquecimento global. Mudanças nos regimes de temperatura e chuva, bem como eventos extremos (como geadas ou secas prolongadas) atingem duramente a produção de alimentos. No Brasil, estima-se que um mundo 2°C mais quente reduzirá, até 2030, a área produtiva de culturas importantes como soja, arroz e feijão, reduzindo a oferta e, portanto, aumentando o preço destes alimentos. A urgência climática nos desafia a mudarmos nossa alimentação.


Do consumo à cidadania: pelo direito de escolha


Diversos restaurantes já servem pratos exclusivamente orgânicos. © Peter Caton / Greenpeace

Antes de escolhermos nossos alimentos em supermercados, feiras livres ou mesmo restaurantes, diversas escolhas foram feitas em nosso nome. Varejistas e grandes marcas de alimento, por sua política de compras; produtores rurais, por meio de suas escolhas de práticas agrícolas; governos, por suas políticas de subsídio, assistência técnica e compras institucionais – todos estes atores definem o que está em nosso prato.


A necessária mudança no modelo de produção de alimentos nos oferece a oportunidade de agir. Como consumidores, mudamos o futuro da nossa alimentação quando escolhemos o que compramos com base em critérios socioambientais, quando observamos a origem e os impactos dos produtos, quando demandamos informação para uma decisão responsável, quando cortamos intermediários e compramos em feiras ou diretamente dos produtores, onde o preço é quase sempre muito menor.

Como cidadãos, podemos cobrar empresas e governos que apostem na solução agroecológica, destinando recursos e promovendo um ambiente de desenvolvimento amplo da agroecologia no Brasil.

O Greenpeace convida a sociedade brasileira a fazer parte deste movimento de construção de um futuro alimentar saudável para as pessoas e o meio ambiente, e justo para quem produz e consome.


Ferreira On 11/10/2017 11:47:00 AM Comentarios LEIA MAIS

terça-feira, 10 de outubro de 2017

Comer é um ato agrícola, disse um fazendeiro e economista americano, mas é também um ato ecológico e um ato político, por Jaqueline B. Ramos*

(*) Jaqueline B. Ramos é jornalista e editora do blog Ambiente-seEste artigo foi publicado originalmente na Agência Envolverde

     Quando falamos em sustentabilidade, pensamos em ações como não poluir, preservar áreas naturais, reciclar lixo, economizar água, dar preferência às fontes alternativas de energia etc. Mas raramente nos lembramos de relacionar uma de nossas atividades mais básicas com impactos negativos no meio ambiente: o ato de se alimentar. Nos primórdios da humanidade, a alimentação era baseada em frutas, raízes, carnes de animais caçados e outras fontes que não modificavam significativamente a natureza (pelo contrário, tudo fazia parte de um ciclo natural). Com o advento da agricultura e da domesticação de animais, há cerca de 12 mil anos, deu-se início à produção de alimentos.

     A passagem do estado nômade para a fixação na terra marcou o início do que chamamos “desenvolvimento da humanidade”. Com o passar dos séculos, o homem foi criando novas formas de manejo do solo e as populações concentradas nas cidades cresceram em ritmo progressivo, aumentando a demanda por alimentos. Até que a chegada da Era Industrial, no final do século XVIII, intensificou a aglomeração de pessoas no ambiente urbano, colocando fim, definitivamente, na ligação direta que o ser humano tinha com a natureza para a obtenção de alimentos. O resultado disso tudo é uma agricultura transformada em indústria que passou a utilizar métodos artificiais, como fertilizantes e pesticidas químicos, irrigação, manipulação genética e uso de hormônios em animais, visando sempre o aumento da produção (e o lucro). Sem contar a dependência por combustíveis fósseis, inclusive no transporte, por longas distâncias, dos alimentos. É a cadeia alimentar industrial.

     Se por um lado todo esse advento é considerado positivo, sendo denominado como desenvolvimento ou modernidade, por outro é fato que o modelo de alimentação industrializado é um forte candidato a causar sérios danos à conservação do meio ambiente e também à saúde do homem. E por incrível que pareça, a maior parte das pessoas atualmente não se dá conta disso. A origem dos alimentos que consome simplesmente não faz parte da sua lista de prioridades e a alimentação, o ato mais corriqueiro e básico do dia-a-dia, não é visto sob a perspectiva ambiental ou da sustentabilidade.

     “Comer é um ato agrícola, disse, numa frase famosa, Wendell Berry (fazendeiro e economista americano). É também um ato ecológico, além de um ato político. Ainda que muito tenha sido feito para obscurecer esse fato bastante simples, o que e como comemos determinam, em grande parte, o que fazemos do nosso mundo – e o que vai acontecer com ele. (…) Muita gente hoje parece totalmente satisfeita comendo na extremidade da cadeia alimentar industrial sem parar para pensar no assunto”, escreve o jornalista norte-americano Michael Pollan, no seu livro “Dilema do Onívoro”. O jornalista passou cinco anos investigando os bastidores da cadeia industrial alimentícia nos Estados Unidos, reconstituindo o trajeto dos pratos mais consumidos e analisando o caminho percorrido pelo alimento da origem à mesa.

Insumos químicos, agrotóxicos, erosão do solo…

     Como afirma o jornalista norte-americano, comer é um ato ecológico, o que faz com que todo cidadão deva, idealmente, ficar atento à origem do alimento que consome e analisar criticamente as técnicas empregadas no sistema de produção. A qualidade e pureza dos alimentos, a sustentabilidade (social e ecológica) dos métodos de produção e os problemas e desigualdades existentes na sua distribuição são algumas das questões que devemos analisar em busca de uma alimentação mais sustentável. Em tempo: é fato que se produz alimento em quantidade suficiente para atender 100% da população mundial. Dificuldades de acesso aos alimentos pela parcela mais carente da sociedade decorrem de problemas sociais e econômicos, que por sua vez causam desequilíbrios na distribuição.

     Destacando algumas problemáticas da agricultura moderna para o meio ambiente, uma primeira questão a ser analisada é o uso de insumos químicos. Visando melhorar a produtividade e assegurar índices de produção, agricultores costumam utilizar adubo e fertilizantes em suas plantações. O adubo mais simples, natural e antigo é o esterco, que misturado a restos de vegetais e fermentado de forma correta resulta no composto orgânico. Mas para ser empregado em larga escala, o processo do fertilizante natural se tornou inviável, economicamente falando. Para os empresários do agrobusiness, passou a ser mais rentável o uso de agroquímicos (agrotóxicos e fertilizantes, principalmente), inclusive para viabilizar o cultivo intensivo de uma única cultura em uma área (as monoculturas, principais vilãs da qualidade do solo).

     Os fertilizantes industriais contêm altas concentrações de nitrogênio, fósforo, potássio e metais pesados. O nitrogênio, por exemplo, pode se acumular no solo e ser transformado, por processos químicos, em nitrato. Além de ser um composto cancerígeno, o nitrato pode contaminar o solo e também ser conduzido aos lençóis subterrâneos, contaminando a água.

     Outro problema gerado neste cenário é o desequilíbrio ecológico causado pela própria prática da monocultura regada por fertilizantes químicos. Entre os principais indicadores do desequilíbrio está o aparecimento de pragas, doenças e ervas daninhas, que por sua vez são combatidas com agrotóxicos – inseticidas, herbicidas e fungicidas. Ou seja, mais uma carga de substâncias químicas tóxicas bombardeando o meio ambiente e a saúde de quem consome os alimentos, pois estes acabam guardando resíduos dos agrotóxicos e têm alta probabilidade de ficarem contaminados.

     Como mais um remediador para o desequilíbrio ecológico conduzido pelo próprio homem e visando, sempre, produtos finais comercialmente mais lucrativos, entram em cena os alimentos transgênicos. Tratam-se de organismos geneticamente modificados (OGMs) desenvolvidos em laboratório. Entre os objetivos da manipulação genética está o de criar plantas mais resistentes a pragas ou até mais resistentes a determinados agrotóxicos. Alimentos transgênicos já são comercializados em vários países – entre eles o Brasil – e ainda há muitas controvérsias em relação aos prós e contras da manipulação genética para a saúde das pessoas e os impactos no meio ambiente. Enquanto os debates e as pesquisas avançam, o importante é o consumidor se informar e exigir a rotulagem dos alimentos transgênicos, de forma a ter condições de decidir por consumir ou não um OGM.

Erosão e o impacto do bife

     Uma questão importante decorrente da agricultura moderna é o fenômeno chamado de “erosão genética”. A interferência do homem nas variedades tradicionais com a manipulação de plantas e animais pode consistir em uma ameaça para a diversidade genética, a principal responsável pela capacidade de resistência, imunidade e sobrevivência das espécies.

     Quando falamos em erosão é importante também lembrar do processo de degradação do solo decorrente do uso de práticas agrícolas inadequadas e da monocultura combinada com a mecanização, o corte de espécies nativas, a queima da vegetação e a pecuária intensiva. Aliás, esta última rende um capítulo à parte na discussão sobre alimentação sustentável, visto que o aumento no consumo de carne e de seus derivados sobrepôs formas naturais (e mais éticas) de criação dos animais, sem contar os problemas ambientais decorrentes da pecuária.

     Numa sociedade majoritariamente onívora, o “impacto do bife” passa por questões de ordem moral – não é à toa a afirmação de que se os abatedouros tivessem paredes de vidro, muita gente se tornaria vegetariana – e também de ordem ambiental. Um relatório divulgado pela Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO, em inglês) em 2006 alertou para o fato de que “estoques de animais vivos” mantidos para alimentação são responsáveis por 18% da emissão de todos os gases causadores do aquecimento global, porcentagem que supera, por exemplo, as emissões causadas por todos os veículos automotores do mundo somados.

     O levantamento da FAO inclui as emissões de metano provocadas pelo sistema digestivo dos animais, as emissões de CO2 geradas pelas queimadas para a formação de pastos, a energia – quase sempre à base de queima de combustíveis fósseis – usada na fabricação de insumos agrícolas, a energia gasta na produção de ração e no bombeamento de água, a energia dos procedimentos de abate e processamento das carcaças, o combustível usado no transporte de animais vivos e de produtos processados de carne, entre outras questões relacionadas à pecuária.

     Seja analisando as técnicas industriais agrícolas ou o modelo intensivo da pecuária, o fato é que a humanidade atingiu um limite perigoso na história de uma relação insustentável com a natureza para obtenção de fontes de alimentos. E nesse momento é importante que cada um, como consumidor, pare para pensar mais criticamente e faça escolhas mais criteriosas e cuidadosas. Como afirma o autor de “Dilema do Onívoro” em um dos trechos do livro, “a insensatez demonstrada na busca por alimentos não é um fenômeno novo. No entanto, os novos atos de insensatez que estamos cometendo na nossa cadeia alimentar industrial hoje são de um tipo diferente.

     Ao substituir a energia solar pelo combustível fóssil, ao criar milhões de animais em rígidas condições de confinamento, ao alimentar esses animais com comida para a qual sua evolução não os adaptou, e ao nos alimentarmos com comidas que são muito mais insólitas do que imaginamos, estamos pondo em grave risco nossa saúde e a saúde do mundo natural.”


O que o consumidor pode fazer em prol de uma alimentação sustentável

# Informar-se sobre a importância da agricultura sustentável e seus benefícios para a produção de alimentos, inclusive em relação à saúde dos indivíduos e ambientes.

# Apoiar propostas de produção regional, especialmente a familiar e a associada, com o objetivo de fortalecer a segurança alimentar local e reduzir o desperdício de energia no transporte.

# Exigir que os produtores respeitem as leis ambientais, assim como a legislação trabalhista, e que utilizem métodos menos impactantes ao meio ambiente, adquirindo produtos elaborados com este diferencial.

# Demandar que os vendedores de alimentos estimulem a produção ecológica, inclusive solicitando a certificação dos produtores por um organismo independente, para que possa ter certeza de que os mesmos cumprem todas as exigências ambientais.

# Organizar-se em cooperativas de consumo que estimulem a produção sustentável local e regional.


Fontes:


Cartilha Alimentos IDEC, livro “Dilema do Onívoro” (editora Intrínseca) e Sociedade Vegeteriana Brasileira (SVB); Cartilha Alimentos (IDEC); Informativo do Instituto Ecológico Aqualung n. 78 -março/abril 2008.
Ferreira On 10/10/2017 04:38:00 PM Comentarios LEIA MAIS

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

AGRICULTURA E ALIMENTAÇÃO O futuro em nosso prato



Fonte:
http://www.greenpeace.org/brasil/pt/O-que-fazemos/agricultura-alimentacao/



Um modelo esgotado

Há vinte anos, o Greenpeace expõe e questiona o modelo agrícola praticado no Brasil. As sementes transgênicas, os agrotóxicos, a expansão da agropecuária sobre a Amazônia e os impactos climáticos da nossa produção comprometem o futuro da nossa alimentação e do planeta. Não temos escolha: é urgente e necessária a mudança para uma outra agricultura, que produza alimentos de maneira ecológica e socialmente justa, para cidadãos cada vez mais preocupados com sua saúde e a saúde do planeta.

O modelo global de produção, distribuição e consumo de alimentos precisa ser revisto, e com urgência. No mundo, quase 800 milhões de pessoas ainda passam fome, enquanto a obesidade e o sobrepeso atingem 1,9 bilhão de pessoas. De fato, nunca produzimos tanta comida, ao passo que o futuro desta produção nunca foi tão incerto – o uso intensivo de agrotóxicos e de recursos naturais (solo e água, por exemplo), a expansão da fronteira sobre matas nativas e a enorme contribuição da agropecuária para as mudanças do clima colocam em xeque esse modelo insustentável e desigual.

O Brasil é um país simbólico, tanto do ponto de vista do problema quanto de sua solução. Por aqui, a produção convencional cresceu exponencialmente ao longo das últimas décadas, via de regra esgotando recursos naturais que garantem a própria sustentação das lavouras. A agropecuária brasileira é a campeã mundial em uso de agrotóxicos, representa mais de um terço das emissões nacionais de gases de efeito estufa e é a principal responsável pelo desmatamento da Amazônia e do Cerrado.

Por outro lado, houve grandes avanços na solução agroecológica no Brasil. A despeito deste modelo historicamente receber uma parcela ínfima dos investimentos públicos e privados, estabeleceu-se uma rede ampla de produtores ecológicos que se integram às paisagens, conservam o solo e os mananciais, se adaptam à seca e produzem comida – muita comida. Além disso, a sociedade civil organizada ampliou a pauta agroecológica no Brasil, seja nas políticas para a produção, na oferta de alimentos saudáveis para consumo ou nas compras públicas de alimentos orgânicos. São passos sólidos em direção ao necessário futuro de um novo modelo de produção de alimentos.


Comida envenenada


Produtor aplica agrotóxicos em sua plantação. Atualmente, o Brasil é o maior consumidor de agrotóxicos do mundo. © Ángel Garcia / Greenpeace

Todos nós consumimos agrotóxicos. Eles estão nos alimentos que comemos, na água que bebemos, na roupa que vestimos. A agricultura brasileira é hoje dependente de herbicidas, fungicidas e inseticidas, aplicados com baixo controle e com alto impacto a quem produz e a quem consome. É alarmante que o Brasil seja o país onde mais se aplica agrotóxicos no planeta.


Segundo o último Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxico(PARA), organizado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), foram detectados resíduos em 67% de todos os alimentos testados – alimentos do nosso dia-a-dia, do nosso almoço e jantar, da sopa das crianças. Das amostras com resíduos, quase 40% contêm agrotóxicos não autorizados ou acima de limites máximos, fato destacado pelo Instituto Nacional do Câncer (INCA), que, em nota, se posicionou oficialmente pela produção de alimentos sem agrotóxicos.

No meio ambiente, a aplicação de veneno impacta os solos, as fontes de água, a flora e a fauna ao redor das plantações. A esterilização provocada pelos agrotóxicos causa desequilíbrios ambientais gravíssimos, que aumentam a proliferação de “pragas” e reduzem a produtividade agrícola. Tal cenário provoca o uso de ainda mais produtos químicos, numa espiral insustentável – mas lucrativa para as empresas do ramo. Um exemplo dramático do impacto ambiental dos agrotóxicos é a redução da população de abelhas, responsável pela polinização de 73% das espécies vegetais cultivadas no mundo (incluindo espécies comerciais como o café e a laranja).



Emissões da agropecuária: um tiro no pé


O gado é responsável por boa parte das emissões globais de gases de efeito estufa (© Cheryl-Samantha Owen / Greenpeace)

Segundo o último cálculo disponibilizado no Sistema de Estimativa de Emissão de Gases de Efeito Estufa (SEEG) do Observatório do Clima, a agropecuária é responsável por 32% das emissões brasileiras. Considerando que ela é a principal atividade que desmata no Brasil, e que a mudança no uso do solo representa cerca de 42% das emissões, é possível afirmar que a agropecuária brasileira é responsável, direta e indiretamente, por 74% de todas as emissões do País.


Ao longo das últimas décadas, expandimos nossas fronteiras para a produção de carne bovina (sobretudo na Amazônia) e soja e milho para a alimentação animal. O desmatamento, o gás metano produzido pela digestão do gado e a aplicação de adubos e fertilizantes sintéticos nessas culturas lideram o impacto climático da nossa produção.

Por outro lado, a agropecuária é a principal vítima do aquecimento global. Mudanças nos regimes de temperatura e chuva, bem como eventos extremos (como geadas ou secas prolongadas) atingem duramente a produção de alimentos. No Brasil, estima-se que um mundo 2°C mais quente reduzirá, até 2030, a área produtiva de culturas importantes como soja, arroz e feijão, reduzindo a oferta e, portanto, aumentando o preço destes alimentos. A urgência climática nos desafia a mudarmos nossa alimentação.


Do consumo à cidadania: pelo direito de escolha


Diversos restaurantes já servem pratos exclusivamente orgânicos. © Peter Caton / Greenpeace

Antes de escolhermos nossos alimentos em supermercados, feiras livres ou mesmo restaurantes, diversas escolhas foram feitas em nosso nome. Varejistas e grandes marcas de alimento, por sua política de compras; produtores rurais, por meio de suas escolhas de práticas agrícolas; governos, por suas políticas de subsídio, assistência técnica e compras institucionais – todos estes atores definem o que está em nosso prato.


A necessária mudança no modelo de produção de alimentos nos oferece a oportunidade de agir. Como consumidores, mudamos o futuro da nossa alimentação quando escolhemos o que compramos com base em critérios socioambientais, quando observamos a origem e os impactos dos produtos, quando demandamos informação para uma decisão responsável, quando cortamos intermediários e compramos em feiras ou diretamente dos produtores, onde o preço é quase sempre muito menor.

Como cidadãos, podemos cobrar empresas e governos que apostem na solução agroecológica, destinando recursos e promovendo um ambiente de desenvolvimento amplo da agroecologia no Brasil.

O Greenpeace convida a sociedade brasileira a fazer parte deste movimento de construção de um futuro alimentar saudável para as pessoas e o meio ambiente, e justo para quem produz e consome.


terça-feira, 10 de outubro de 2017

Os impactos da alimentação para o meio ambiente

Comer é um ato agrícola, disse um fazendeiro e economista americano, mas é também um ato ecológico e um ato político, por Jaqueline B. Ramos*

(*) Jaqueline B. Ramos é jornalista e editora do blog Ambiente-seEste artigo foi publicado originalmente na Agência Envolverde

     Quando falamos em sustentabilidade, pensamos em ações como não poluir, preservar áreas naturais, reciclar lixo, economizar água, dar preferência às fontes alternativas de energia etc. Mas raramente nos lembramos de relacionar uma de nossas atividades mais básicas com impactos negativos no meio ambiente: o ato de se alimentar. Nos primórdios da humanidade, a alimentação era baseada em frutas, raízes, carnes de animais caçados e outras fontes que não modificavam significativamente a natureza (pelo contrário, tudo fazia parte de um ciclo natural). Com o advento da agricultura e da domesticação de animais, há cerca de 12 mil anos, deu-se início à produção de alimentos.

     A passagem do estado nômade para a fixação na terra marcou o início do que chamamos “desenvolvimento da humanidade”. Com o passar dos séculos, o homem foi criando novas formas de manejo do solo e as populações concentradas nas cidades cresceram em ritmo progressivo, aumentando a demanda por alimentos. Até que a chegada da Era Industrial, no final do século XVIII, intensificou a aglomeração de pessoas no ambiente urbano, colocando fim, definitivamente, na ligação direta que o ser humano tinha com a natureza para a obtenção de alimentos. O resultado disso tudo é uma agricultura transformada em indústria que passou a utilizar métodos artificiais, como fertilizantes e pesticidas químicos, irrigação, manipulação genética e uso de hormônios em animais, visando sempre o aumento da produção (e o lucro). Sem contar a dependência por combustíveis fósseis, inclusive no transporte, por longas distâncias, dos alimentos. É a cadeia alimentar industrial.

     Se por um lado todo esse advento é considerado positivo, sendo denominado como desenvolvimento ou modernidade, por outro é fato que o modelo de alimentação industrializado é um forte candidato a causar sérios danos à conservação do meio ambiente e também à saúde do homem. E por incrível que pareça, a maior parte das pessoas atualmente não se dá conta disso. A origem dos alimentos que consome simplesmente não faz parte da sua lista de prioridades e a alimentação, o ato mais corriqueiro e básico do dia-a-dia, não é visto sob a perspectiva ambiental ou da sustentabilidade.

     “Comer é um ato agrícola, disse, numa frase famosa, Wendell Berry (fazendeiro e economista americano). É também um ato ecológico, além de um ato político. Ainda que muito tenha sido feito para obscurecer esse fato bastante simples, o que e como comemos determinam, em grande parte, o que fazemos do nosso mundo – e o que vai acontecer com ele. (…) Muita gente hoje parece totalmente satisfeita comendo na extremidade da cadeia alimentar industrial sem parar para pensar no assunto”, escreve o jornalista norte-americano Michael Pollan, no seu livro “Dilema do Onívoro”. O jornalista passou cinco anos investigando os bastidores da cadeia industrial alimentícia nos Estados Unidos, reconstituindo o trajeto dos pratos mais consumidos e analisando o caminho percorrido pelo alimento da origem à mesa.

Insumos químicos, agrotóxicos, erosão do solo…

     Como afirma o jornalista norte-americano, comer é um ato ecológico, o que faz com que todo cidadão deva, idealmente, ficar atento à origem do alimento que consome e analisar criticamente as técnicas empregadas no sistema de produção. A qualidade e pureza dos alimentos, a sustentabilidade (social e ecológica) dos métodos de produção e os problemas e desigualdades existentes na sua distribuição são algumas das questões que devemos analisar em busca de uma alimentação mais sustentável. Em tempo: é fato que se produz alimento em quantidade suficiente para atender 100% da população mundial. Dificuldades de acesso aos alimentos pela parcela mais carente da sociedade decorrem de problemas sociais e econômicos, que por sua vez causam desequilíbrios na distribuição.

     Destacando algumas problemáticas da agricultura moderna para o meio ambiente, uma primeira questão a ser analisada é o uso de insumos químicos. Visando melhorar a produtividade e assegurar índices de produção, agricultores costumam utilizar adubo e fertilizantes em suas plantações. O adubo mais simples, natural e antigo é o esterco, que misturado a restos de vegetais e fermentado de forma correta resulta no composto orgânico. Mas para ser empregado em larga escala, o processo do fertilizante natural se tornou inviável, economicamente falando. Para os empresários do agrobusiness, passou a ser mais rentável o uso de agroquímicos (agrotóxicos e fertilizantes, principalmente), inclusive para viabilizar o cultivo intensivo de uma única cultura em uma área (as monoculturas, principais vilãs da qualidade do solo).

     Os fertilizantes industriais contêm altas concentrações de nitrogênio, fósforo, potássio e metais pesados. O nitrogênio, por exemplo, pode se acumular no solo e ser transformado, por processos químicos, em nitrato. Além de ser um composto cancerígeno, o nitrato pode contaminar o solo e também ser conduzido aos lençóis subterrâneos, contaminando a água.

     Outro problema gerado neste cenário é o desequilíbrio ecológico causado pela própria prática da monocultura regada por fertilizantes químicos. Entre os principais indicadores do desequilíbrio está o aparecimento de pragas, doenças e ervas daninhas, que por sua vez são combatidas com agrotóxicos – inseticidas, herbicidas e fungicidas. Ou seja, mais uma carga de substâncias químicas tóxicas bombardeando o meio ambiente e a saúde de quem consome os alimentos, pois estes acabam guardando resíduos dos agrotóxicos e têm alta probabilidade de ficarem contaminados.

     Como mais um remediador para o desequilíbrio ecológico conduzido pelo próprio homem e visando, sempre, produtos finais comercialmente mais lucrativos, entram em cena os alimentos transgênicos. Tratam-se de organismos geneticamente modificados (OGMs) desenvolvidos em laboratório. Entre os objetivos da manipulação genética está o de criar plantas mais resistentes a pragas ou até mais resistentes a determinados agrotóxicos. Alimentos transgênicos já são comercializados em vários países – entre eles o Brasil – e ainda há muitas controvérsias em relação aos prós e contras da manipulação genética para a saúde das pessoas e os impactos no meio ambiente. Enquanto os debates e as pesquisas avançam, o importante é o consumidor se informar e exigir a rotulagem dos alimentos transgênicos, de forma a ter condições de decidir por consumir ou não um OGM.

Erosão e o impacto do bife

     Uma questão importante decorrente da agricultura moderna é o fenômeno chamado de “erosão genética”. A interferência do homem nas variedades tradicionais com a manipulação de plantas e animais pode consistir em uma ameaça para a diversidade genética, a principal responsável pela capacidade de resistência, imunidade e sobrevivência das espécies.

     Quando falamos em erosão é importante também lembrar do processo de degradação do solo decorrente do uso de práticas agrícolas inadequadas e da monocultura combinada com a mecanização, o corte de espécies nativas, a queima da vegetação e a pecuária intensiva. Aliás, esta última rende um capítulo à parte na discussão sobre alimentação sustentável, visto que o aumento no consumo de carne e de seus derivados sobrepôs formas naturais (e mais éticas) de criação dos animais, sem contar os problemas ambientais decorrentes da pecuária.

     Numa sociedade majoritariamente onívora, o “impacto do bife” passa por questões de ordem moral – não é à toa a afirmação de que se os abatedouros tivessem paredes de vidro, muita gente se tornaria vegetariana – e também de ordem ambiental. Um relatório divulgado pela Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO, em inglês) em 2006 alertou para o fato de que “estoques de animais vivos” mantidos para alimentação são responsáveis por 18% da emissão de todos os gases causadores do aquecimento global, porcentagem que supera, por exemplo, as emissões causadas por todos os veículos automotores do mundo somados.

     O levantamento da FAO inclui as emissões de metano provocadas pelo sistema digestivo dos animais, as emissões de CO2 geradas pelas queimadas para a formação de pastos, a energia – quase sempre à base de queima de combustíveis fósseis – usada na fabricação de insumos agrícolas, a energia gasta na produção de ração e no bombeamento de água, a energia dos procedimentos de abate e processamento das carcaças, o combustível usado no transporte de animais vivos e de produtos processados de carne, entre outras questões relacionadas à pecuária.

     Seja analisando as técnicas industriais agrícolas ou o modelo intensivo da pecuária, o fato é que a humanidade atingiu um limite perigoso na história de uma relação insustentável com a natureza para obtenção de fontes de alimentos. E nesse momento é importante que cada um, como consumidor, pare para pensar mais criticamente e faça escolhas mais criteriosas e cuidadosas. Como afirma o autor de “Dilema do Onívoro” em um dos trechos do livro, “a insensatez demonstrada na busca por alimentos não é um fenômeno novo. No entanto, os novos atos de insensatez que estamos cometendo na nossa cadeia alimentar industrial hoje são de um tipo diferente.

     Ao substituir a energia solar pelo combustível fóssil, ao criar milhões de animais em rígidas condições de confinamento, ao alimentar esses animais com comida para a qual sua evolução não os adaptou, e ao nos alimentarmos com comidas que são muito mais insólitas do que imaginamos, estamos pondo em grave risco nossa saúde e a saúde do mundo natural.”


O que o consumidor pode fazer em prol de uma alimentação sustentável

# Informar-se sobre a importância da agricultura sustentável e seus benefícios para a produção de alimentos, inclusive em relação à saúde dos indivíduos e ambientes.

# Apoiar propostas de produção regional, especialmente a familiar e a associada, com o objetivo de fortalecer a segurança alimentar local e reduzir o desperdício de energia no transporte.

# Exigir que os produtores respeitem as leis ambientais, assim como a legislação trabalhista, e que utilizem métodos menos impactantes ao meio ambiente, adquirindo produtos elaborados com este diferencial.

# Demandar que os vendedores de alimentos estimulem a produção ecológica, inclusive solicitando a certificação dos produtores por um organismo independente, para que possa ter certeza de que os mesmos cumprem todas as exigências ambientais.

# Organizar-se em cooperativas de consumo que estimulem a produção sustentável local e regional.


Fontes:


Cartilha Alimentos IDEC, livro “Dilema do Onívoro” (editora Intrínseca) e Sociedade Vegeteriana Brasileira (SVB); Cartilha Alimentos (IDEC); Informativo do Instituto Ecológico Aqualung n. 78 -março/abril 2008.
  • RSS
  • Delicious
  • Digg
  • Facebook
  • Twitter
  • Linkedin
  • Youtube

Blog Archive

Blogger templates