segunda-feira, 10 de julho de 2017

Fonte: Livro da Embrapa Hortaliças – Brasília, DF. Interessados em adquirir o livro “PRODUÇÃO ORGÂNICA DE HORTALIÇAS – Coleção 500 Perguntas – 500 Respostas” devem entrar em contato através do email: vendas@sct.embrapa.br;              Para ver o livro completo, acessar: http://mais500p500r.sct.embrapa.br/view/pdfs/90000021-ebook-pdf.pdf

     Com o objetivo de divulgar e aumentar o conhecimento sobre agricultura orgânica,  estamos transcrevendo  do livro, algumas perguntas e respostas que consideramos mais relevantes.


Capítulo 11 – Plantas espontâneas e Solarização

Autores:  Welington Pereira e  Mírian Josefina Baptista

O que são plantas invasoras ou ervas daninhas?
Esses termos são muito empregados na literatura, agrícola e botânica, brasileira, gerando confusões e controvérsias a respeito de seu significado. Em conceituação ampla, planta daninha é “toda e qualquer planta que ocorre onde não é desejada”. Essa definição ampla inclui as soqueiras ou plantas voluntárias de certas culturas, como batata e batata-doce, que crescem em outras culturas implantadas em sucessão. Em termos agrícolas, planta daninha pode ser conceituada como “toda e qualquer planta que germine espontaneamente em áreas de interesse humano e que, de alguma forma, interfere prejudicialmente em suas atividades agropecuárias”.

O que são plantas espontâneas?
Plantas ou ervas espontâneas e plantas invasoras são espécies de plantas que germinam na área de cultivo, podendo ser espécies nativas ou exóticas já estabelecidas. Espécies nativas são as que surgem naturalmente na região, originárias da própria área, ao passo que espécies exóticas são introduzidas na região, isto é, não são nativas ou originárias da área. Embora a Instrução Normativa no 7, do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), de 17/5/99, adote , entre outras normas disciplinares para a produção vegetal orgânica, o termo “plantas invasoras”, é muito comum o uso do termo “plantas espontâneas” nos sistemas de produção orgânica.

Qual o papel das plantas espontâneas nos sistemas orgânicos?
Uma das diferenças fundamentais do sistema orgânico em relação ao convencional é a promoção da agrobiodiversidade e da manutenção dos ciclos biológicos na unidade produtiva, procurando a sustentabilidade econômica, social e ambiental da unidade, no tempo e no espaço. Nesse contexto, a flora presente assume grande importância quando as espécies da comunidade atuam como protetoras do solo, como hospedeiras alternativas de inimigos naturais, pragas, patógenos ou como mobilizadoras ou cicladoras de nutrientes, competindo por água, etc.

Por que o termo plantas daninhas não é utilizado na agricultura orgânica?
O uso do termo “plantas daninhas” não é apropriado para a agricultura orgânica, pois leva em conta apenas seus efeitos negativos sobre a produção agrícola, ignorando os efeitos positivos. É muito importante considerar a maneira pela qual as plantas interagem com seus vizinhos no agroecossistema, uma vez que há vários tipos, maneiras e graus de interação entre elas. A protocooperação, por exemplo, é o tipo positivo de interação ou associação, em que os dois parceiros são estimulados quando estão próximos o bastante para participar da interação. A associação de insetos benéficos com as plantas invasoras e as culturas representa provavelmente o exemplo mais conhecido de protocooperação na agricultura. Por sua vez, tanto as plantas cultivadas como as silvestres são hospedeiras de grande número de pragas e patógenos, servindo inclusive de abrigo e fonte de alimento para insetos benéficos. É importante observar que o conceito de planta daninha é relativo, pois muitas delas podem trazer vantagens ao homem pelo enriquecimento da fauna benéfica, apesar de danificarem a produtividade biológica em determinadas fases dos cultivos.

Quais as principais vantagens de deixar plantas espontâneas crescerem ao redor de hortaliças cultivadas?
O crescimento das plantas espontâneas ao redor de hortaliças ou o estabelecimento de áreas ou faixas de vegetação espontânea fora da área cultivada comercialmente tem a vantagem de preservar ao máximo os aspectos naturais estabelecidos pelo ecossistema local. Na divisão dos talhões de cultivo, devem ser deixadas faixas de vegetação espontânea de 2 m a 4 m de largura, chamadas de corredores de refúgio, para abrigar a fauna local benéfica. Além disso, deve-se fazer o manejo da vegetação espontânea com capinas em faixas nas culturas com espaçamento nas entrelinhas e manter a vegetação entre os canteiros. Essas técnicas têm a vantagem de assegurar maior estabilidade do sistema produtivo, reduzindo normalmente os problemas com pragas e doenças. Sistemas diversificados podem diminuir a incidência de pragas e aumentar a atividade de inimigos naturais. Entre outras vantagens, a vegetação espontânea pode colaborar para a ciclagem de nutrientes de fácil mobilidade e, por cobrirem o solo, podem protegê-lo contra a erosão.

Quais as plantas espontâneas indicadoras de solo pobre ou quimicamente desequilibrado?

Algumas das principais plantas indicadoras de solo pobre ou desequilibrado estão listadas na Tabela 4.

 Tabela 4. Plantas indicadoras de solo pobre ou desequilibrado.

      Planta espontânea    
            Características indicadoras
Amendoim-bravo ou leiteiro  (Euphorbia heterophylla)
Desequilíbrio entre nitrogênio (N) e micronutirentes, sobretudo molibdênio (Mo) e cobre (Cu)
Azedinha (Oxalis oxyptera)
Solo argiloso, pH baixo, falta de cálcio (Ca), falta de molibdênio
Barba-de-bode (Aristilla pallens)
Terra de queimadas, pobreza em fósforo (P), cálcio, potássio (K), solos com pouca água
Cabelo-de-porco (Carex spp.)
Pouco cálcio (Ca)
Capim-amargoso ou capim-açu (Digitaria insularis)
Solos de baixa fertilidade
Capim-caninha ou capim-colorado (Andropogon incanis)
Solos temporariamente encharcados, periodicamente queimados e com deficiência de fósforo (P)
Capim-arroz (Echinochloa crusgalli var. crusgalli)
Solo rico em elementos tóxicos, como o alumínio na forma reduzida
Capim-marmelada ou papuã (Brachiaria plantaginea)
Típico de solos constantemente arados, gradeados, com deficiência de zinco (Zn)
Capim-rabo-de-burro (Andropogon sp.)
Indica solos ácidos com baixo teor de cálcio, camada impermeável entre 60 cm e 120 cm de profundidade
Capim-amoroso ou carrapicho (Cenchrus ciliatus)
Terra de lavoura empobrecida e muito compacta, pobre em cálcio (Ca)
Caraguatá (Eryggium ciliatum)
É freqüente em solos onde se praticam queimadas, com húmus ácido
Carrapicho-de-carneiro (Acanthosperum hispidum)
Deficiência em cálcio (Ca)
Cavalinha (Equisetum SP.)
Solo com acidez de média a elevada
Guanxuma (Sida spp.)
Quando tem um baixo crescimento, indica que o solo é pouco fértil
Mio-mio (Bacharis coridifolia)
Deficiência de molibdênio (Mo)
Nabo (Raphanus raphanistrum)
Deficiência de boro (B) e manganês (Mn)
Picão-branco (Galinsoga parviflora)
Solo com excesso de nitrogênio (N) e deficiente em micronutrientes. É beneficiado pela deficiência de cobre (Cu)
Samambaia (Pteridium auilinum)
Solo com altos teores de alumínio (Al) tóxico
Sapé (Imperata exaltata)
Solos ácidos. Ocorre também em solos deficientes em magnésio (Mg)
Tiririca (Cyperus rotondus)
Solo ácido, com carência de magnésio (Mg)
Urtiga (Urtica urens)
Carência em cobre (Cu)



Quais as plantas espontâneas indicadoras de solo fértil?
Entre as plantas indicadoras de solo fértil, pode-se citar a beldroega (Portulaca oleracea), a chirca (Ruppatorium sp.), o dentede-leão (Taraxum oficialis) e a guanxuma (Sida spp.). 

A incidência de plantas espontâneas pode variar de acordo com o tipo de hortaliça cultivada?
 Sim. A incidência de plantas espontâneas em áreas de cultivo de hortaliças depende de vários fatores, que variam de acordo com o tipo de hortaliça, uma vez que são cultivadas em diferentes espaçamentos, arranjos e densidades populacionais. Além disso, as hortaliças têm diferentes taxas de crescimento e arquitetura, que resultam em diferenças nos índices de área foliar, cobertura do solo e graus de interceptação da luz solar, fator essencial para o estímulo, germinação de sementes e ocorrência de plantas espontâneas. As hortaliças que conseguem cobrir mais rapidamente o solo geralmente reduzem a incidência de plantas espontâneas na área cultivada.

 O que é alelopatia?
O termo alelopatia, segundo o interesse específico da área de manejo de plantas invasoras, refere-se aos efeitos biológicos negativos das plantas de uma espécie vegetal sobre o desenvolvimento e o crescimento de plantas de outra espécie, resultantes da liberação de substâncias químicas orgânicas no ambiente comum. Assim, algumas plantas (cultivadas ou não) complementam sua agressividade pela liberação de substâncias tóxicas ou substâncias inibidoras de crescimento chamadas de aleloquímicos, por meio de exsudações pelas raízes e lixiviação da matéria orgânica produzida. Em geral, essas substâncias modificam o crescimento das espécies que as absorvem, reduzindo ou eliminando sua habilidade de competição. A comprovação dos efeitos diretos dos aleloquímicos nas condições de campo é difícil, sendo preciso separar a alelopatia de outras formas de interferência negativa, especialmente a competição. Vários trabalhos na literatura demonstram que as hortaliças são bastante suscetíveis aos aleloquímicos. As leguminosas mucuna-preta e feijão-de-porco mostraram-se eficientes no processo de competição, alelopatia e na redução do banco de sementes do solo.

Qual a alternativa para reduzir a presença de plantas espontâneas no início do cultivo de hortaliças?
A presença de plantas espontâneas no início do cultivo de hortaliças pode ser reduzida com técnicas de manejo em pré- semeadura ou no transplante das mudas. Pode-se, também, planejar o uso de glebas associado a um programa de solarização dos talhões no período de altas temperaturas antes do plantio. O preparo do solo e a pré-irrigação estimulam a germinação e o desenvolvimento das plantas invasoras. Recomenda-se fazer o preparo do solo de 3 a 4 semanas antes do plantio para permitir a germinação, o crescimento inicial e o controle pós-emergente das plantas emersas e em processo de germinação, com capina manual, gradagem ou encanteiramento, de forma superficial para evitar revolver muito o solo novamente e provocar novos estímulos de germinação de outras sementes. O controle de plântulas espontâneas também pode ser feito com fogo produzido por bicos aplicadores a gás, no início ou por ocasião do primeiro cultivo da hortaliça.

Como pode ser feito o controle da vegetação espontânea no cultivo orgânico?
Em conformidade com a Instrução Normativa nº 007, o manejo das plantas invasoras deve ser feito pelo emprego de uma ou mais das seguintes técnicas:
• Cobertura vegetal do solo, viva ou morta.
• Meios mecânicos de controle.
• Rotação de culturas.
• Alelopatia.
• Controle biológico.
• Cobertura inerte, que não cause contaminação e poluição, a critério da certificadora. • Solarização.
• Sementes e mudas isentas de plantas invasoras.

O que é capina seletiva?
Capina seletiva consiste em arrancar as plantas espontâneas que estão amadurecendo, que já cumpriram com seu papel ecofisiológico, mantendo apenas as plantas jovens. A capina seletiva deve eliminar somente as espécies mais agressivas e/ou que estejam interferindo biologicamente na cultura. A matéria orgânica capinada é deixada sobre o solo. A análise do período em que as espécies de plantas invasoras competem com as hortaliças por fatores de crescimento é importante, e a época e a duração do período em que a cultura e as plantas espontâneas coexistem exercem influência na intensidade da interferência biológica.

É verdade que o esterco de gado é uma das maiores fontes de sementes de plantas espontâneas?
 Sim. O uso de suplementos orgânicos pode constituir-se em fonte de plantas invasoras ou espontâneas, sobretudo se o esterco de gado não tiver sido suficientemente tratado antes da sua aplicação no solo. Por exemplo, cerca de 20 % das sementes de ançarinha-branca (Chenopodium album) permaneceram viáveis no estrume curtido de gado (1 kg de esterco continha 42 sementes viáveis). O uso de compostagem pode aliviar esse problema, pois as temperaturas normalmente alcançadas durante esse processo são suficientemente altas para matar a maioria das sementes. Observou-se a perda total da viabilidade das sementes de várias espécies após a compostagem do esterco de gado por 4 semanas, alcançando temperaturas de 55oC a 65oC. Para uma redução significativa da viabilidade das sementes, a temperatura requerida deve ficar acima  de 46 o C, sendo o tempo de compostagem menos importante do que a temperatura requerida.

O que é banco de sementes?
O banco de sementes do solo (BSS) é uma reserva de sementes e de propágulos vegetativos presentes na superfície e no interior do solo, composta de sementes novas produzidas anualmente e de sementes “velhas” que persistem vivas no solo por vários anos ou mesmo décadas. O banco de sementes do solo representa um “arquivo de informações” sobre as condições ambientais e as práticas culturais usadas, sendo inclusive um fator importante de avaliação do potencial de infestação das plantas invasoras, no presente e no futuro. Seu estudo permite estabelecer as relações quantitativas entre as populações de plantas presentes, sendo muito importante para os programas de manejo integrado. Práticas inadequadas de manejo tendem a aumentar o banco de sementes das plantas invasoras no solo, agravando ainda mais o problema em cultivos sucessivos.

Como ocorre a disseminação de sementes de plantas espontâneas?
Estima-se que apenas 1 % a 9 % das sementes viáveis produzidas em determinado ano germinam naquele mesmo período, ficando o resto com germinação escalonada para os anos subseqüentes, dependendo do nível de dormência, da distribuição no perfil do solo e dos estímulos recebidos para germinar. O tamanho e a composição botânica do BSS variam de acordo com os sistemas de cultivo. As sementes de espécies cultivadas geralmente não são muito competitivas porque têm baixa longevidade e rápida germinação.

Qual a importância do banco de sementes nos sistemas agroecológicos?

A grande diversidade de espécies de plantas espontâneas que infestam as áreas de cultivo de hortaliças está normalmente associada a ambientes com distúrbios constantes. Isso ocorre principalmente em virtude de suas características biológicas e reprodutivas que promovem elevada produção de sementes, eficiente dispersão de algumas espécies, dormência e longevidade das sementes e sobrevivência das plantas. Essas características, aliadas às peculiaridades do manejo, normalmente, contribuem para a geração de grandes bancos de sementes no solo, o que garante o potencial regenerativo de várias espécies. Assim, o BSS constitui– se na principal fonte das plantas espontâneas que ocorrem nos sistemas agroecológicos. Que práticas culturais utilizadas em sistemas orgânicos de produção contribuem para o manejo e/ou controle das plantas espontâneas? Vários autores relataram que a rotação de culturas e o uso de adubos verdes reduzem o tamanho do banco de sementes no solo. As seqüências de cultivos propiciam diferentes modelos de competição, alelopatia e distúrbios do solo, com variação da pressão de seleção para plantas invasoras específicas. Isso se deve ao fato de que cada cultura apresenta uma gama de plantas “associadas” variando normalmente com a localização geográfica. O uso de adubos orgânicos e a água de irrigação podem constituir-se em fonte de introdução de sementes ou de propágulos vegetativos de plantas na área cultivada.

Por que a tiririca é tão agressiva?
 O crescimento da tiririca é intenso, e normalmente superior ao das culturas anuais, por ser uma planta perene fisiologicamente eficiente, resistindo a muitas das práticas de controle comumente usadas na olericultura. De cada clone (conjunto de bulbos basais, rizomas e tubérculos geneticamente idênticos e interconectados) emerge grande número de plantas, formando altas densidades populacionais. Os tubérculos e bulbos basais são o principal local de crescimento vegetativo prolífico porque contêm as gemas para folhas, rizomas, raízes e haste floral. Os tubérculos, por sua vez, são produzidos nos rizomas, constituindo a unidade primária de reprodução e dispersão. As sementes têm taxa de germinação em torno de 5 %, no caso da tiririca-roxa, sendo consideradas de pouca importância para o estabelecimento e dispersão, pois o vigor e a sobrevivência de suas plântulas são muito baixos. Como ocorre a disseminação

Como ocorre a disseminação da tiririca nos sistemas de produção agrícola ?
 A disseminação da tiririca, tanto a curta quanto a longa distância, é feita, em geral, pelo homem mediante os seguintes mecanismos:
• Utilização de equipamentos agrícolas, como máquinas, implementos e ferramentas, com tubérculos ou plantas inteiras aderidos juntamente com resíduos vegetais ou restos de solo, os quais são disseminados durante as rotinas de preparo do solo, plantio e trânsito em geral.
• Aplicação de matéria orgânica com tubérculos e plantas de tiririca.
• Uso de substrato em bandejas e mudas de hortaliças com torrões contaminados com tubérculos, sementes e plantas de tiririca.
• Colheita, transporte, comercialização e descartes de produtos agrícolas contaminados com propágulos de tiririca. Os tubérculos de tiririca são capazes de se desenvolver dentro de tubérculos de batata e de raízes tuberosas, podendo inclusive misturar-se a hortaliças folhosas, a tubérculos e raízes durante a colheita e transporte. • Transporte de tubérculos, sementes, bulbos basais ou plantas de tiririca pela enxurrada e água dos canais de irrigação.

Como manejar a tiririca nos sistemas orgânicos de produção?
 Como normalmente os métodos de controle não impedem a reprodução de todas as partes das plantas, deve-se manter as medidas de controle continuadamente, ano após ano. Assim, o conceito de controle, independente do método, deve ser amplo, de forma que possa ser utilizado durante o ano todo e em anos sucessivos. O conjunto e a integração de todas as práticas, métodos ou tecnologias utilizadas nos ciclos de cultivos anuais e plurianuais constituem-se no que se denomina de “manejo integrado”. O controle da tiririca só pode ser alcançado com a combinação de métodos de controle (cultural, mecânico e biológico) concentrando-se nas fases de inibição da brotação dos tubérculos e/ou na inibição ou paralisação da formação e desenvolvimento de novos tubérculos a fim de reduzir gradativamente o banco de tubérculos existente no solo. Como a tiririca é muito sensível ao sombreamento, deve-se cultivar hortaliças com espaçamento o mais estreito possível e usar cultivares de desenvolvimento rápido e que produzam grande massa foliar, como a batata-doce, para reduzir o crescimento e a agressividade da tiririca.

Como é feito o controle mecânico da tiririca?
O método de controle mecânico, por meio do preparo do solo, de capinas ou cultivos, controla temporariamente a tiririca. O principal objetivo do cultivo é trazer os tubérculos para a  superfície do solo, induzir a brotação e reduzir seu número pela dessecação provocada pelos raios solares, principalmente em regiões áridas ou em épocas de seca, ou pelo bloqueio da formação de novos tubérculos por cultivos sucessivos. O tempo necessário para matar os tubérculos varia de 7 a 14 dias em condições de seca e sol forte. Em geral, a primeira brotação dos tubérculos reduz suas reservas energéticas em até 60 %. Os cortes, capinas ou cultivos sucessivos induzem um crescimento menos vigoroso por causa do consumo de aproximadamente 10 % das reservas de carboidratos a cada corte realizado. Pelo menos 2 anos de controle mecânico quinzenal são requeridos para reduzir a população de tiririca a níveis satisfatórios de manejo. A manutenção da área livre de culturas facilita o trabalho. O uso da cobertura com material inerte (plasticultura) e da solarização destacam-se entre as medidas mais eficientes para o manejo da tiririca nos sistemas agroecológicos.

Já existe controle biológico da tiririca?
 Muitos trabalhos foram realizados com o objetivo de regular a população de tiririca a níveis aceitáveis com o controle biológico clássico envolvendo o uso de insetos inimigos naturais. Entretanto, nenhum dos agentes testados produziu resultados satisfatórios em virtude da baixa especificidade na relação inseto-tiririca, baixo estabelecimento do agente e incapacidade para controlar o crescimento ou rebrote da tiririca. O melhor exemplo de controle biológico da espécie C. esculentus foi desenvolvido na década de 1990, nos Estados Unidos, com o fungo da ferrugem (Puccinia canaliculata (Schw) Lagerh.). O bio-herbicida é composto por um parasita obrigatório (o fungo da ferrugem) e assim só pode ser produzido em plantas vivas, não tendo a indústria grande interesse comercial em sua produção. O fungo da ferrugem é mantido em plantas de tiririca durante o inverno, em condições de casa de vegetação, levando-se as plantas infectadas ao campo quando a população de tiririca estiver  aparecendo na cultura. Dessa forma, a doença alcança os níveis epidêmicos no início da estação de cultivo, causando a desidratação das raízes, reduzindo o florescimento e a formação de tubérculos, provocando a morte de plantas e reduzindo a competitividade da tiririca com as hortaliças.

O que é solarização?
 A solarização é um processo físico de desinfestação do solo que consiste na cobertura do solo úmido com plástico de polietileno transparente, na estação quente do ano, antes do plantio. O solo é mantido coberto com o plástico por cerca de 30 a 60 dias. Durante esse período, ocorre o efeito estufa, que aquece o solo, principalmente nas horas mais quentes do dia, provocando a morte de sementes e propágulos de plantas invasoras e de fitopatógenos que sobrevivem no solo. A aplicação da solarização só deve ser feita nos períodos do ano com maiores temperaturas e radiação solar, para garantir a eficiência do aquecimento do solo coberto pelo plástico.

Como aplicar a solarização na propriedade?
Para aplicar a solarização, a área a ser plantada deve ser bem preparada com aração e gradagem. A superfície deve ficar livre de torrões grandes e galhos que possam romper o plástico. As adubações e calagens necessárias devem ser feitas antes da colocação do plástico, para evitar o revolvimento do solo após a solarização. Toda a área deve ser bem irrigada (até a capacidade de campo), pois o efeito da solarização depende do calor e da umidade. Logo após a irrigação, o solo deve ser coberto com plástico de polietileno transparente com 75 micras a 100 micras de espessura. As bordas do plástico devem ser enterradas à profundidade de 20 cm para reter o calor e a umidade. O plástico deve ser colocado bem esticado e rente ao solo para evitar a formação de bolsões de ar, o que reduz a eficiência do processo e 295 296 193 facilita o rompimento do plástico pelo vento. Recomenda-se a cobertura do solo com o plástico por 30 a 60 dias dependendo da infestação da área a ser tratada, sempre nos períodos do ano com maior temperatura e radiação solar. Após esse período, o plástico é removido, podendo ser guardado para reutilização. Em casas de vegetação teladas, além da cobertura do solo com o plástico, recomenda-se cobrir também as telas laterais, para permitir maior aumento da temperatura durante a solarização.

Como funciona a solarização no controle de plantas espontâneas?
A solarização provoca o aumento diário da temperatura do solo, que atinge cerca de 40 °C a 45 °C, à profundidade de 20 cm, e de 50 °C a 60 °C, a 5 cm, nas horas mais quentes do dia. A flutuação de temperaturas durante o dia, associada à umidade do solo, provoca a morte de sementes e propágulos de plantas invasoras, o que reduz consideravelmente sua emergência na área solarizada e a necessidade de capinas. Durante o processo de solarização, o crescimento de plantas sob o plástico é impedido pelas altas temperaturas e as que conseguem germinar são queimadas rapidamente. A ausência de crescimento de plantas invasoras sob o plástico durante a solarização é um indicativo de que esse processo está sendo realizado corretamente e na época do ano adequada. Após a retirada do plástico, o crescimento de plantas invasoras é bastante reduzido, por causa da morte de parte significativa das sementes e propágulos presentes no solo, pela ação direta do calor, pela queima de plântulas germinadas ou pela alteração no balanço de gases no solo durante a solarização que afeta a sobrevivência das plantas. Mas é bem provável que o principal fator da morte seja o calor. A sensibilidade das plantas depende de suas características biológicas, da umidade e da profundidade das sementes durante o tratamento. Estudos estão sendo realizados para determinar que espécies são mais sensíveis ou resistentes ao processo. Para garantir maior eficiência da solarização, recomenda-se não revolver o solo após o tratamento, para não trazer à superfície as sementes que sobreviveram em maiores profundidades.

A solarização também funciona para o controle de doenças?
A solarização é uma técnica de desinfestação do solo inicialmente desenvolvida para o controle de doenças causadas por patógenos que sobrevivem e se acumulam no solo. A solarização tem sido usada no controle de fungos, nematóides e bactérias causadores de podridões e murchas nas plantas. A eficiência do método depende da intensidade da infestação da área, da aplicação correta da solarização na época adequada e até do uso em conjunto com outros métodos de controle. O efeito da solarização no controle de patógenos do solo ocorre por causa do aumento da temperatura que provoca a morte dos microrganismos patogênicos e do aumento do controle biológico em virtude do favorecimento de microrganismos antagonistas. Esses microrganismos são prejudiciais aos patógenos do solo e sobrevivem bem ao processo de solarização. Diversos estudos estão sendo feitos para determinar as condições mais adequadas de solarização a fim de melhorar o controle de patógenos importantes em diversas culturas. As pesquisas realizadas no Brasil e no exterior já evidenciaram o controle de patógenos causadores de murchas e podridões de raízes incluindo fungos (Phytophthora, Pythium, Sclerotium, Sclerotinia, dentre outros), bactérias (Ralstonia solanacearum, Agrobacterium) e nematóides (Meloidogyne incognita, etc.).

O efeito da solarização persiste por quanto tempo?
O efeito da solarização no controle de plantas invasoras pode ser visualizado durante o período de cultivo, mas a duração desse efeito é afetada por fatores como espécies de plantas espontâneas presentes na área, intensidade de infestação, métodos de preparo do solo utilizados na propriedade, manejo da cultura, etc. O efeito sobre o controle de fitopatógenos do solo pode se prolongar por mais de uma estação de cultivo em virtude do estímulo que a solarização traz ao controle biológico por microrganismos do solo. Dependendo do manejo da cultura, da rotação e das cultivares utilizadas, pode-se prolongar os efeitos da solarização no controle de doenças causadas por fitopatógenos do solo por mais de um ano de cultivo.

Já existem exemplos práticos de aplicação da solarização na produção de hortaliças orgânicas?
 No Brasil, os exemplos são na maioria experimentais em virtude de a solarização ainda ser uma técnica pouco conhecida pelos produtores. Em estudos sobre o efeito da solarização em população infestante de tiririca (Cyperus rotundus) realizados na Embrapa Agrobiologia, verificou-se que a solarização do solo tornou desnecessária a capina durante o período de cultivo da cenoura e feijão-de-vagem em sistema orgânico, reduzindo a necessidade de mão-de-obra. Nas áreas não solarizadas, foi preciso fazer capina nos primeiros 30 dias de cultivo. O controle, entretanto, não foi total, pois a tiririca é uma das espécies mais tolerantes às temperaturas elevadas. O conhecimento dos benefícios da solarização, porém, ainda é restrito e sua principal limitação é a escolha da época adequada do ano, pois essa é uma técnica dependente das condições climáticas. A definição da melhor estratégia para inserir o processo de solarização na seqüência de cultivos nas propriedades, em um sistema de manejo integrado, e a maior divulgação da técnica são importantes para que a solarização seja utilizada de forma eficiente pelos produtores.

A solarização é aceita pelas certificadoras?
A solarização é permitida na agricultura orgânica, de acordo com a Instrução Normativa no 7, sendo citada especificamente no 300 301 196 Anexo III, que trata da produção vegetal, indicada para o manejo de plantas invasoras. Dentre as certificadoras, o Instituto Biodinâmico (IBD), na 12a edição de suas Diretrizes para o Padrão de Qualidade, determina que serão permitidos o controle térmico de invasoras e os métodos físicos para o controle de pragas, doenças e manejo de plantas invasoras. O uso de cobertura de polietileno também é permitido desde que seja removido do solo após o uso. Nas Normas de Produção Orgânica, da Associação de Agricultura Orgânica (AAO), é permitido o uso de métodos físicos e mecânicos, incluindo o uso do calor.

A solarização pode afetar negativamente os organismos benéficos do solo?
 O aquecimento do solo produzido pela solarização provoca alterações na comunidade microbiana do solo como um todo. No entanto, os microrganismos patogênicos tendem a ser mais afetados pela solarização, pois são menos competitivos no solo que os microrganismos não patogênicos ou saprófitas. Os microrganismos saprófitas, dentre os quais estão muitos microrganismos responsáveis pelo controle biológico de doenças e pela promoção do crescimento das plantas, são adaptados para sobreviver decompondo a matéria orgânica do solo. A solarização provoca redução na população de alguns microrganismos benéficos, mas eles se recuperam rapidamente após o tratamento, recolonizando o solo. Esse aumento na população de microrganismos benéficos provoca um efeito positivo no crescimento das plantas, após a solarização, e um efeito de controle biológico sobre os patógenos do solo. Alguns grupos de bactérias chegam a aumentar sua população cerca de 20 vezes no solo solarizado. Embora a atividade microbiana total do solo sofra pequena redução, observa-se, ao mesmo tempo, um aumento na atividade supressiva do solo em relação aos patógenos, indicando o aumento na população de microrganismos relacionados ao controle biológico. A extensão e a duração dos efeitos da solarização sobre 302 197 diversos grupos de microorganismos estão sendo avaliadas em trabalhos de pesquisa, mas verifica-se que, em geral, os organismos benéficos são pouco afetados pelo processo de solarização. Deve-se considerar que a microbiota do solo responde rapidamente a qualquer interferência nesse ambiente, como o preparo do solo, a irrigação, as alterações climáticas, e a solarização do solo não escapa à regra.



Ferreira On 7/10/2017 11:24:00 AM Comentarios LEIA MAIS

sábado, 10 de junho de 2017

Fonte: Livro da Embrapa Hortaliças – Brasília, DF. Interessados em adquirir o livro “PRODUÇÃO ORGÂNICA DE HORTALIÇAS – Coleção 500 Perguntas – 500 Respostas” devem entrar em contato através do email: vendas@sct.embrapa.br; Para ver o livro completo, acessar: http://mais500p500r.sct.embrapa.br/view/pdfs/90000021-ebook-pdf.pdf

     Com o objetivo de divulgar e aumentar o conhecimento sobre agricultura orgânica,  estamos transcrevendo  do livro, algumas perguntas e respostas que consideramos mais relevantes.

Capítulo 10 – Manejo de Doenças

Autores:  Wagner Bettiol e Marcelo A.B. Morandi

Qual a diferença entre uma planta sadia e uma planta doente?
     Uma planta sadia é capaz de conduzir todas as funções fisiológicas normalmente, sem apresentar nenhuma anormalidade ou disfunção, seja em seu crescimento, na fotossíntese, na respiração, na absorção de nutrientes, na produção e distribuição de fotoassimilados, no florescimento, na frutificação, etc. Uma planta doente apresenta alguma desordem fisiológica que altera seu desenvolvimento. Para caracterizar uma doença, essa desordem fisiológica deve apresentar mais duas características: ser uma irritação contínua e ser provocada por um agente causal primário. Quando o agente causal é um organismo vivo (fungo, bactéria, vírus, nematóide, viróide, protozoário, micoplasma e outros), a doença é denominada biótica e é considerada infecciosa, ou seja, o patógeno pode crescer e multiplicar-se na planta doente e se disseminar para outras plantas sadias.

O que são patógenos de plantas?
     Qualquer organismo capaz de causar uma doença é denominado patógeno. Os organismos que causam doenças em plantas são chamados de fitopatógenos. Os principais fitopatógenos são: fungos, bactérias, vírus, viróides, protozoários, nematóides, micoplasmas e espiroplasmas. Os patógenos mais importantes para hortaliças são os fungos, as bactérias, os vírus e os nematóides.

Como ocorrem as doenças em hortaliças?
     Para que ocorra uma doença em hortaliças e nas demais plantas é necessária a interação de três fatores: um hospedeiro (planta), um patógeno e o ambiente. Esses três fatores formam o “triângulo de doenças”. Para haver doença é indispensável que o ambiente seja favorável ao patógeno, que o hospedeiro (planta) seja suscetível ao patógeno e que o patógeno esteja presente e seja capaz de causar doença. Uma vez que essas três condições ocorram simultaneamente, o processo da doença pode ter início.

O que são sintomas e sinais de doenças?
Os sintomas são a expressão da doença, ou seja, o conjunto das várias alterações fisiológicas e morfológicas que ocorrem durante e após a infecção. Os sintomas variam de doença para doença, sendo os mais comuns:
• Manchas foliares.
• Necrose de tecidos.
• Amarelecimento.
• Clorose.
• Deformação dos órgãos vegetais.
• Redução do crescimento.
• Podridões.
• Murchas.
• Tombamentos de mudas.
• Morte de ponteiros.
     Normalmente, os sintomas de uma doença não são visíveis a olho nu logo de imediato. O período de tempo entre a infecção e o aparecimento dos sintomas é denominado período de incubação. A extensão desse período depende do patógeno, das condições de ambiente e do estádio de desenvolvimento e da resistência do hospedeiro. Os sinais são as estruturas do patógeno que se formam nas diferentes partes da planta e tornam-se visíveis. Exemplos de sinais mais comuns são os esporos, os micélios, os escleródios e outras estruturas reprodutivas no caso de fungos; pus, no caso de bactérias; e ovos, no caso de nematóides, etc.
     As doenças em plantas resultam da interação entre o patógeno, o hospedeiro e o ambiente.

As doenças só ocorrem quando há um desequilíbrio?
     As doenças de plantas ocorrem na natureza com o objetivo de manter, em parte, o equilíbrio biológico e a ciclagem de nutrientes, sendo benéficas sob esse ponto de vista. Na natureza, em ecossistemas em equilíbrio, observa-se a incidência de doenças, porém estas ocorrem de forma endêmica ou isolada. Não ocorrem epidemias que poderiam destruir as plantas ou provocar prejuízos graves, uma vez que isso colocaria em risco a sobrevivência dos próprios patógenos.
     Nas áreas cultivadas, porém, é freqüente a ocorrência de epidemias, pois a interferência humana altera o equilíbrio da natureza. Uma das condições que favorecem o aumento da população de patógenos e a ocorrência de epidemias é o cultivo de plantas geneticamente homogêneas, no espaço (áreas contínuas) e no tempo (cultivos sucessivos), o que é contrário à diversidade de variedades e espécies que ocorrem na natureza e que são indispensáveis na agricultura orgânica.

Como fazer para restabelecer o equilíbrio e reduzir a incidência de doenças?
     O resgate dos princípios e mecanismos que operam nos sistemas da natureza pode auxiliar na obtenção de sistemas agrícolas mais sustentáveis. Em sistemas de cultivo caracterizados pela mistura de culturas (policulturas, consórcios), por exemplo, as espécies suscetíveis podem ser cultivadas em densidades menores e o espaço entre elas ocupado por plantas resistentes que interessam ao produtor. A densidade menor de plantas suscetíveis e a barreira oferecida pelas plantas resistentes dificultam a disseminação do patógeno, reduzindo a quantidade de inóculo no campo.
     Além do aumento da diversidade no espaço, o aumento da diversidade no tempo, por meio da rotação de culturas, também permite que os processos biológicos auxiliem na proteção de plantas, como ocorre no controle de diversos fitopatógenos veiculados pelo solo.

Quais as vantagens da diversificação de culturas no manejo de doenças no sistema orgânico?
     A diversificação de culturas nas propriedades rurais, além dos benefícios agronômicos e econômicos, traz benefícios sociais, pois estende o período de tratos culturais e aumenta a necessidade de mão-de-obra, sendo esse aspecto parte integrante da sustentabilidade. Entretanto, a indiscriminada diversificação da vegetação dentro de um agroecossistema pode não resultar na redução do risco de ocorrência de pragas e doenças. Os efeitos de combinações planejadas de plantas devem ser estudados criteriosamente ante de sua aplicação em programas de manejo. Em diversas propriedades que adotam o cultivo orgânico de hortaliças, os benefícios da diversidade são suficientes para que as doenças não provoquem limitações na produtividade.

Quais as principais doenças causadas por fungos em hortaliças?
 As principais doenças causadas por fungos em hortaliças estão listadas na Tabela 2.
   
Tabela 2. Principais doenças causadas por fungos em hortaliças.
Doença   
Principais patógenos envolvidos
Principais culturas afetadas
Tombamento
Pythium spp., Phytophthora spp., Rhizoctonia spp., Alternaria spp.
Mudas de hortaliças em geral
Podridão ou murcha de Esclerotinia e Esclerotium
Sclerotinia sclerotiorum, Sclerotium rolfsii, S. cepivorum
Tomate, repolho, alface, cenoura, ervilha, pimentão, feijão-de-vagem, cebola
Murcha
Fusarium oxysporum (várias formas specialis), Verticillium spp.
Tomate, repolho, cebola, berinjela, jiló, feijão-de-vagem, batata
Requeima
Phytophthora spp., Phytophthora spp.
Tomate, batata, pimentão
Míldio
Peronospora spp., Bremia sp., Pseudoperonospora spp.
Repolho, alface, cebola, pepino, ervilha
Antracnose
Colletotrichum spp.
Pimentão, cebola, berinjela, jiló, pepino, feijão-de-vagem
Manchas foliares
Diversos gêneros de fungos (Alternaria, Cercospora, Stemphylium, Septoria, Mycosphaerella, Botrytis Leandria, Ascochyta e outros)
Todas as hortaliças em geral são afetadas por manchas foliares
Oídio
Sphaerotheca sp., Oidium sp., Erysiphe spp.
Pepino e outras cucurbitáceas, ervilha, feijão-de-vagem
Ferrugem
Puccinia spp., Uromyces spp.
Cebola, alho, feijão-de-vagem

Que bactérias provocam doenças em plantas e quais seus sintomas?
     As bactérias que provocam doenças em plantas são denominadas bactérias fitopatogênicas, algumas muito importantes para hortaliças. Elas se disseminam rapidamente e são de difícil controle. Em condições favoráveis, a ocorrência de bacterioses pode inviabilizar a exploração econômica de algumas culturas por longos períodos, como ocorre em solos infestados com Ralstonia solanacearum, causadora da murchadeira-do-tomateiro e da batateira. Os principais gêneros de bactérias causadoras de doenças em hortaliças e os tipos gerais de sintomas que elas provocam estão listados na Tabela 3.

 Tabela 3. Principais gêneros de bactérias e seus sintomas.
Gênero 
Sintomas
Principais plantas afetadas
Clavibacter
Murcha e cancro
Tomate, pimentão
Curtobacterium
Murcha
Feijão-de-vagem, ervilha
Erwinia
Podridão-mole
Cenoura, repolho, hortaliças
Pseudomonas
Murcha
Solanáceas
Ralstonia
Murcha
Solanáceas
Xanthomonas
Mancha foliar
Solanáceas, brássicas, outras

Como ocorre a transmissão de vírus e como é feito o controle das viroses?
     A transmissão por insetos é o meio de disseminação mais comum e mais importante dos vírus de plantas, na natureza. Outros meios de propagação incluem:
• Contato entre plantas, como ocorre com a transmissão do vírus-do-mosaico-do-fumo (TMV) em tomateiro pelo atrito entre folhas de plantas doentes e sadias.
• Solo, diretamente ou por nematóides e fungos.
• Sementes e pólen.
• Propagação vegetativa de plantas, como estaquia, enxertia, tubérculos, bulbos, bulbilhos, estolhos, rizomas, raízes, etc.
As medidas de controle das viroses vegetais fundamentam-se em três estratégias, todas de caráter preventivo:
• Obtenção e utilização de material propagativo livre de vírus.
• Controle antecipado de vírus e de seus vetores pela eliminação de plantas espontâneas que servem de hospedeiros alternativos para certos vírus.
• Redução ou impedimento de introdução do patógeno na cultura e de sua disseminação entre as plantas.

Quais os sintomas das doenças causadas por nematóides?
     Todas as espécies de plantas cultivadas estão sujeitas ao ataque de alguma espécie de nematóide. Entretanto, sua presença é às vezes pouco notada pelos agricultores por causa de seu tamanho reduzido e da dificuldade em identificar alguns dos sintomas causados por nematóides nas plantas atacadas, que podem ser confundidos com os de deficiência mineral ou de outras doenças. Quando penetram e se movimentam nos tecidos das plantas e deles se alimentam, os nematóides causam danos mecânicos e retiram nutrientes da planta para seu próprio sustento, depauperando-a. O ataque de nematóides também pode tornar as plantas mais suscetíveis ao ataque de outros patógenos, como fungos e bactérias.

A “pipoca” das raízes de hortaliças é causada por nematóides?
     Sim, a “pipoca” é causada por Meloidogyne, o principal gênero de fitonematóide de importância para hortaliças, também conhecido como o nematóide-das-galhas. As galhas são en- 255 256 167 grossamentos, de diâmetros variáveis, quase sempre observados nas raízes infestadas pelo nematóide. Galhas formadas em tubérculos, como em batata, são popularmente chamadas de “pipocas”.
     Outros sintomas associados ao ataque de Meloidogyne nas raízes são:
 • Redução do volume de raízes.
• Rachaduras.
• Raízes digitadas (comum em cenouras, por exemplo).
     Na parte aérea, podem ser observados sintomas como:
• Amarelecimento (geralmente em reboleiras).
• Sintomas de deficiência mineral.
• Murchas. • Desfolhamento.
• Diminuição da produção.

Que medidas devem ser tomadas antes do plantio para evitar a ocorrência de doenças?
     O controle de uma doença deve ser entendido como uma série de medidas que começa com a decisão de implantar a cultura. Assim, o controle deve ser visto como um conjunto de ações integradas para evitar a ocorrência da doença e de perdas. De modo geral, recomenda-se:
• Plantar variedades ou cultivares resistentes às principais doenças que ocorrem na região e no período de cultivo.
• Adquirir sementes e mudas de boa qualidade, uma vez que diversos patógenos são transmitidos pelas sementes e mudas.
• Fazer o cultivo diversificado de hortaliças, para aumentar a diversidade de espécies na área.
• Adubar com material orgânico de origem conhecida e preferencialmente compostado adequadamente.

Que cuidados são importantes, durante o cultivo, para evitar a ocorrência de doenças ou reduzir seu efeito?
 Durante o cultivo, deve-se adotar um conjunto de medidas preventivas:
• Se a cultura exigir desbrota, evitar fazê-la em dias chuvosos ou logo após a irrigação. • Utilizar ferramentas devidamente desinfestadas.
• Evitar ferimentos nas plantas e frutos durante os tratos culturais.
• Manter quantidade adequada de plantas espontâneas.
• Manejar adequadamente a irrigação de modo a evitar encharcamento ou falta de água e utilizar água de boa qualidade.
• Avaliar com freqüência a plantação para verificar eventuais problemas com doenças e, encontrando focos, retirar o material doente e enterrá-lo.
• Fazer o controle de pragas e doenças com os produtos recomendados, como os extratos de plantas, agentes de controle biológico e outros.

Como é feito o diagnóstico de doenças?
     O diagnóstico da doença ou a identificação de sua causa é a etapa fundamental para a implementação de medidas de controle. Dependendo da doença, o diagnóstico pode ser feito no campo por extensionista experiente ou agrônomo especializado na cultura. Um dos modos mais simples de se fazer um diagnóstico preliminar é comparar os sintomas com fotografias ou descrições de publicações. Outros fatores, como deficiência ou toxidez nutricional, características genéticas da planta, ação de insetos, excesso ou falta de água ou mudanças climáticas, podem causar sintomas parecidos com os das doenças.
     Em caso de dúvidas, o melhor é enviar o material a um laboratório de fitopatologia de universidades ou de instituições de pesquisa. É necessário entrar em contato diretamente com cada instituição para saber se o laboratório executa diagnóstico de determinada cultura ou de agente causal e também para conhecer os critérios de encaminhamento de material.

É verdade que as hortaliças cultivadas no sistema orgânico são mais resistentes às doenças do que as cultivadas no sistema convencional?
     Há ainda muitas questões a serem respondidas sobre o desenvolvimento de doenças na agricultura orgânica. Os trabalhos de pesquisa que comparam a severidade de doenças de plantas em sistemas orgânicos e convencionais informam que as doenças radiculares são menos severas nos cultivos orgânicos, ao passo que as doenças foliares podem ser mais ou menos severas ou similares, dependendo da reação do patógeno, do estado nutricional das plantas (principalmente o teor de nitrogênio) e das condições climáticas.
      Geralmente, há mais dificuldade de controle de doenças foliares do que das radiculares por meio de métodos biológicos e culturais, especialmente em regiões de clima favorável às doenças. Outro aspecto importante é a diversidade biológica utilizada no cultivo orgânico de hortaliças, que reduz a chance de ocorrer uma epidemia, pois as plantas das diferentes espécies formam uma barreira biológica. Isso não significa que as plantas sejam mais resistentes, mas que existem condições adversas à ocorrência de doenças.

Qual a relação da trofobiose com a prevenção de doenças?
     De acordo com a teoria da trofobiose (trofo: alimento; biose: existência de vida), uma planta torna-se vulnerável ao ataque de uma praga ou patógeno quando há desequilíbrio metabólico que resulta em excesso de “alimento solúvel” disponível para esses organismos nocivos. Esses alimentos podem ser encontrados na forma de aminoácidos, açúcares e minerais não incorporados em macromoléculas insolúveis (proteínas, amido, etc.).
     As causas do desequilíbrio podem ser problemas nutricionais (especialmente excesso de macronutrientes) ou intoxicação em conseqüência do uso intensivo e exagerado de agrotóxicos e de outros agroquímicos. No caso da horticultura orgânica, em que não se usam agrotóxicos, o aspecto nutricional deve ser destacado. Uma nutrição adequada e balanceada, adequada às particularidades da cultura, da cultivar e da fase de desenvolvimento da planta, ajuda a aumentar a resistência das plantas às doenças. É importante salientar que a nutrição deve ser considerada como umas das variáveis que favorecem a sanidade das culturas, dentro do contexto do manejo orgânico pleno, que inclui a escolha da cultura e de cultivares adequadas ao local de plantio, a época correta de semeadura/plantio, espaçamento correto, condução adequada (irrigação, adubação, limpeza, desbrota, etc.), preparo adequado do solo, adubação verde, rotação de culturas, uso de quebra-ventos e cercas vivas, etc.

O que são defensivos alternativos?
     Um dos principais problemas da agricultura orgânica refere-se ao manejo de doenças, pragas e plantas espontâneas. Antes das facilidades para aquisição de agrotóxicos para o controle dos problemas fitossanitários, os agricultores preparavam e utilizavam produtos obtidos a partir de materiais disponíveis nas proximidades de suas propriedades. Com a popularização do uso de agrotóxicos, aqueles produtos foram quase que totalmente abandonados e, hoje, muitos deles são chamados de alternativos. O termo mais adequado é “defensivo biocompatível”, mas é pouco usado no Brasil, sendo preferível o termo “produtos ou defensivos alternativos”, por serem alternativos aos agrotóxicos (fungicidas, inseticidas, acaricidas e herbicidas). Assim, a expressão “defensivos alternativos” relaciona-se a um grupo de produtos utilizados na proteção de plantas em substituição aos agrotóxicos. Nesse grupo de produtos estão incluídos:
 • Agentes de controle biológico.
• Extratos de plantas.
• Biofertilizantes.
• Conservadores de alimentos.
• Alimentos.
• Sais.
• Extratos de algas.
• Óleos. • Extratos de matéria orgânica.
• Extratos de fungos.
• Caldas.

Como agem os defensivos alternativos?
     Como nos defensivos alternativos estão incluídos diferentes produtos, praticamente todos os modos de ação conhecidos de interferência em microrganismos patogênicos para as plantas fazem parte do modo de ação desses produtos. Os modos de ação dos agentes de controle biológico de doenças são:
• Parasitismo.
• Competição.
• Antibiose.
• Predação.
• Hipovirulência.
• Indução de resistência do hospedeiro.
     Alguns extratos de plantas, fungos e de matéria orgânica agem por indução de resistência do hospedeiro, outros por inibição do crescimento e da reprodução dos fitopatógenos. A ação de alguns desses produtos alternativos é semelhante à dos agrotóxicos. Entretanto, uma característica comum dos defensivos alternativos é sua baixa toxicidade para o homem, os animais e o ambiente.

O que é calda borladesa?
     A calda bordalesa é o resultado de uma mistura de sulfato de cobre, cal hidratada ou cal virgem e água. O primeiro a observar sua eficiência no controle de doenças foi P. M. Millardet, em 1882, em Bordeaux, na França (por isso calda bordalesa). A calda bordalesa é utilizada para tratamento preventivo contra doenças causadas por fungos e também para proteção contra infecção por bactérias. Além de controlar diversas doenças, a calda fornece cobre, cálcio e enxofre para as plantas. A calda bordalesa pode ser preparada na propriedade ou adquirida no mercado, e seu custo de produção é baixo em relação aos demais fungicidas.
     A calda bordalesa original apresentava as seguintes proporções: 3 partes de sulfato de cobre, 1 parte de óxido de cálcio e 100 partes de água. Atualmente, entretanto, essas proporções dependem de cada grupo de cultura. Por exemplo, para hortaliças em geral, utilizam-se de 300 g a 1 kg de sulfato de cobre, de 300 g a 1 kg de cal virgem em 100 L de água. Para as cucurbitáceas, mais sensíveis, utilizam-se o máximo de 300 g a 500 g de sulfato de cobre, de 300 g a 500 g de cal virgem em 100 L de água. A pureza dos materiais e o estádio de desenvolvimento das plantas são aspectos importantes a serem considerados: para plantas jovens ou em florescimento, utilizam-se dosagens menores.

Qual o modo de preparo da calda bordalesa?
     O modo de preparo da calda bordalesa é o seguinte: coloca-se o sulfato de cobre em um saquinho de pano, que é mergulhado em 18 L de água, em vasilhame de plástico, de cimento amianto 264 265 173 ou de madeira, por 3 ou 4 horas, até que o sulfato dissolva. A cal virgem deve ser misturada em 2 L ou 5 L de água, de preferência na véspera, e despejada na solução de sulfato de cobre, misturando muito bem. Antes de usar a calda bordalesa, é preciso verificar sua acidez. Para isso, mergulha-se uma lâmina de ferro (pode ser uma faca) no preparado durante 3 minutos e verifica-se seu escurecimento. Se a lâmina escurecer, a calda não pode ser aplicada, devendo-se acrescentar um pouco mais de cal virgem, repetindo-se o teste até que a lâmina não fique escura.
     Se alguém desejar maior precisão, basta utilizar papel ou o pHmetro, para medir o pH, que deve ficar em torno de 7 (neutro) ou ligeiramente alcalino. Recomenda-se tomar cuidado e utilizar os equipamentos de proteção individual recomendados para o manuseio de agrotóxicos.
     A calda bordalesa não pode ser armazenada por mais de 3 dias e não deve ser misturada a outros produtos utilizados em agricultura orgânica. Devem ser observados o período de carência e os intervalos de aplicação tanto da calda bordalesa quanto de outras, como sulfocálcica.
     Como o preparo da calda bordalesa requer cuidados especiais, quem dispuser de facilidades pode adquiri-la em estabelecimentos comerciais especializados. Diversas certificadoras orgânicas estabelecem limites de quantidade de cobre que pode ser aplicado na cultura.

O que é calda sulfocálcica e como é preparada?
     O poder do enxofre sobre as doenças já era conhecido na época dos gregos e romanos. Entretanto, o enxofre foi redescoberto para uso na agricultura por volta de 1800, quando se fez a primeira mistura com cal e água. A calda sulfocálcica é obtida da mistura de enxofre e cal virgem ou hidratada e apresenta ação fungicida, acaricida e inseticida.
 Ingredientes e modo de preparo: 2 kg de enxofre em pó, pecuário ou ventilado, 1 kg de cal virgem e 10 L de água. Em uma 266 174 lata de 20 L colocam-se aos poucos 10 L de água na cal virgem. Essa suspensão de cal deve ser levada ao fogo e, no início da fervura, coloca-se o enxofre e mistura-se durante 1 hora, mantendo a fervura. Deve-se acrescentar água quente para manter o volume da suspensão que, ao final de 1 hora de fervura, estará grossa. Depois que esfriar, a calda deve ser coada em pano dobrado, antes de ser utilizada. A calda pode ser armazenada por 60 dias em recipientes de plástico ou de vidro, tampados e completamente cheios.
     A calda sulfocálcica é altamente alcalina e corrosiva, danificando recipientes de metal, roupas e a pele. Por essa razão, é preciso usar os equipamentos de proteção individual e lavar muito bem os recipientes e as mãos com solução de uma parte de vinagre ou limão para 10 L de água, depois da utilização. Deve-se tomar muito cuidado com os olhos.
     A calda sulfocálcica não deve ser usada em cucurbitáceas (abóbora, abobrinha, melão, melancia e pepino). Dependendo das facilidades, a calda pode ser adquirida em estabelecimentos comerciais especializados.

É preciso tomar algum cuidado especial com os equipamentos de pulverização após a aplicação das caldas?
     Sim. Depois da aplicação das caldas, é preciso pulverizar o trator com óleo de mamona ou com uma mistura de graxa e óleo lubrificante e lavar com sabão ou detergente. Pode-se também pulverizar o trator com uma mistura de óleo diesel e óleo lubrificante e lavar com jato de água. As peças do equipamento devem ser lavadas com solução de vinagre ou suco de limão ou ácido cítrico a 20 %.

O leite pode ser utilizado no controle de doenças de plantas?
     Sim. Embora seja recomendado exclusivamente para o controle do oídio, que se caracteriza por um crescimento branco do fungo na superfície das plantas, o leite deve ser utilizado preventivamente para pulverizar todas as plantas. Recomenda-se fazer a aplicação preferencialmente nos horários de temperaturas mais amenas, isto é, no início ou no final do dia. Embora o leite não exija o uso de espalhante adesivo, os resultados são melhores quando se mistura um espalhante na calda de aplicação. A pulverização semanal de leite cru de vaca, nas concentrações de 5 % e 10 %, auxilia no controle do oídio de diversas culturas.

A urina de vaca pode ser usada no controle de doenças de plantas?
     A urina tem sido recomendada tanto para a nutrição de plantas como para o controle de doenças causadas por fungos nos cultivos de frutas, hortaliças e de plantas ornamentais. Após a coleta, a urina deve descansar por 3 dias em frasco fechado, antes de ser diluída em água imediatamente antes do uso. As dosagens variam de 1 % a 2,5 %.
     Em culturas como o quiabo, jiló e berinjela, recomenda-se uma aplicação a 1 % a cada 15 dias. Como a urina de vaca tem índice salino elevado, sua aplicação em altas concentrações pode causar fitotoxicidade à planta. Os efeitos da urina de vaca são atribuídos a sua composição que contém nutrientes, compostos antimicrobianos e substâncias indutoras de resistência. A urina de vaca é rica em potássio, cloro, enxofre, nitrogênio, sódio, fenóis, ácido indolacético e priocatecol.
     Apesar dos efeitos benéficos obtidos, certos cuidados devem ser tomados com o aspecto sanitário dos animais antes de usar a urina a fim de não contaminar as pessoas com microrganismos patogênicos. Como ainda não há nenhum estudo nessa área, recomenda-se que seu uso seja restrito, evitando usar a urina de vaca em hortaliças de consumo in natura, como morangos, alface e outras folhosas.

O que é controle biológico de doenças de hortaliças?
     A maneira tradicional de conceituar controle biológico de doenças de plantas é considerá-lo como o controle de um microrganismo por meio de outro microrganismo. Entretanto, existem conceitos mais abrangentes, como sendo a redução da soma de inóculo ou das atividades determinantes da doença, provocada por um patógeno, realizada por um ou mais organismos que não o homem. Nessa visão, o controle biológico pode ser acompanhado de práticas culturais para criar ambiente favorável aos antagonistas e à resistência da planta hospedeira ou, do melhoramento da planta para aumentar sua resistência ao patógeno ou adequar o hospedeiro às atividades dos antagonistas. O controle biológico inclui, ainda, a introdução em massa de antagonistas, de linhagens não patogênicas ou outros organismos e agentes benéficos. O controle biológico é mais popular no manejo de insetos-praga.

Já existe controle biológico de doenças de hortaliças em uso no Brasil?
     No âmbito do conceito mais amplo, pode-se dizer que o controle biológico de doenças é amplamente utilizado na produção de hortaliças, no Brasil. Considerando-se, porém, controle biológico como envolvendo, obrigatoriamente, um antagonista, sua utilização é mais limitada, pois existe no mercado brasileiro apenas um agente de controle biológico de doenças devidamente registrado nos Ministérios da Agricultura, do Meio Ambiente e da Saúde. Apesar disso, no mercado são encontrados antagonistas comercializados para o controle de doenças à base dos fungos Trichoderma e Clonostachys.

Como preparar extratos de plantas para o controle de doenças de plantas?
     São diversos os extratos de plantas recomendados para uso em agricultura orgânica, como os extratos de alho, cavalinha, cebola, pimenta vermelha, pimenta-do-reino, eucalipto, fumo, ‘Santa Bárbara‘ ou cinamomo do sul, Tagetes ou cravo-de-defunto, mamoeiro, menta, nim, primavera e Reynoutria sachalinensis. Esses produtos, de modo geral, são preparados na propriedade, mas alguns são comercializados. Como são muitas as formas de preparação dos extratos, sugere-se que se consulte o livro Práticas Alternativas de Controle de Pragas e Doenças na Agricultura5 , em que estão relatadas 90 receitas.


5ABREU JUNIOR, H. de (Org.). Práticas Alternativas de Controle de Pragas e Doenças na Agricultura. Campinas, SP: Emopi, 1998. 115 p.
Ferreira On 6/10/2017 02:59:00 PM Comentarios LEIA MAIS

segunda-feira, 10 de julho de 2017

PERGUNTAS E RESPOSTAS SOBRE PRODUÇÃO ORGÂNICA DE HORTALIÇAS- Capítulo 11: Plantas Espontâneas e Solarização

Fonte: Livro da Embrapa Hortaliças – Brasília, DF. Interessados em adquirir o livro “PRODUÇÃO ORGÂNICA DE HORTALIÇAS – Coleção 500 Perguntas – 500 Respostas” devem entrar em contato através do email: vendas@sct.embrapa.br;              Para ver o livro completo, acessar: http://mais500p500r.sct.embrapa.br/view/pdfs/90000021-ebook-pdf.pdf

     Com o objetivo de divulgar e aumentar o conhecimento sobre agricultura orgânica,  estamos transcrevendo  do livro, algumas perguntas e respostas que consideramos mais relevantes.


Capítulo 11 – Plantas espontâneas e Solarização

Autores:  Welington Pereira e  Mírian Josefina Baptista

O que são plantas invasoras ou ervas daninhas?
Esses termos são muito empregados na literatura, agrícola e botânica, brasileira, gerando confusões e controvérsias a respeito de seu significado. Em conceituação ampla, planta daninha é “toda e qualquer planta que ocorre onde não é desejada”. Essa definição ampla inclui as soqueiras ou plantas voluntárias de certas culturas, como batata e batata-doce, que crescem em outras culturas implantadas em sucessão. Em termos agrícolas, planta daninha pode ser conceituada como “toda e qualquer planta que germine espontaneamente em áreas de interesse humano e que, de alguma forma, interfere prejudicialmente em suas atividades agropecuárias”.

O que são plantas espontâneas?
Plantas ou ervas espontâneas e plantas invasoras são espécies de plantas que germinam na área de cultivo, podendo ser espécies nativas ou exóticas já estabelecidas. Espécies nativas são as que surgem naturalmente na região, originárias da própria área, ao passo que espécies exóticas são introduzidas na região, isto é, não são nativas ou originárias da área. Embora a Instrução Normativa no 7, do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), de 17/5/99, adote , entre outras normas disciplinares para a produção vegetal orgânica, o termo “plantas invasoras”, é muito comum o uso do termo “plantas espontâneas” nos sistemas de produção orgânica.

Qual o papel das plantas espontâneas nos sistemas orgânicos?
Uma das diferenças fundamentais do sistema orgânico em relação ao convencional é a promoção da agrobiodiversidade e da manutenção dos ciclos biológicos na unidade produtiva, procurando a sustentabilidade econômica, social e ambiental da unidade, no tempo e no espaço. Nesse contexto, a flora presente assume grande importância quando as espécies da comunidade atuam como protetoras do solo, como hospedeiras alternativas de inimigos naturais, pragas, patógenos ou como mobilizadoras ou cicladoras de nutrientes, competindo por água, etc.

Por que o termo plantas daninhas não é utilizado na agricultura orgânica?
O uso do termo “plantas daninhas” não é apropriado para a agricultura orgânica, pois leva em conta apenas seus efeitos negativos sobre a produção agrícola, ignorando os efeitos positivos. É muito importante considerar a maneira pela qual as plantas interagem com seus vizinhos no agroecossistema, uma vez que há vários tipos, maneiras e graus de interação entre elas. A protocooperação, por exemplo, é o tipo positivo de interação ou associação, em que os dois parceiros são estimulados quando estão próximos o bastante para participar da interação. A associação de insetos benéficos com as plantas invasoras e as culturas representa provavelmente o exemplo mais conhecido de protocooperação na agricultura. Por sua vez, tanto as plantas cultivadas como as silvestres são hospedeiras de grande número de pragas e patógenos, servindo inclusive de abrigo e fonte de alimento para insetos benéficos. É importante observar que o conceito de planta daninha é relativo, pois muitas delas podem trazer vantagens ao homem pelo enriquecimento da fauna benéfica, apesar de danificarem a produtividade biológica em determinadas fases dos cultivos.

Quais as principais vantagens de deixar plantas espontâneas crescerem ao redor de hortaliças cultivadas?
O crescimento das plantas espontâneas ao redor de hortaliças ou o estabelecimento de áreas ou faixas de vegetação espontânea fora da área cultivada comercialmente tem a vantagem de preservar ao máximo os aspectos naturais estabelecidos pelo ecossistema local. Na divisão dos talhões de cultivo, devem ser deixadas faixas de vegetação espontânea de 2 m a 4 m de largura, chamadas de corredores de refúgio, para abrigar a fauna local benéfica. Além disso, deve-se fazer o manejo da vegetação espontânea com capinas em faixas nas culturas com espaçamento nas entrelinhas e manter a vegetação entre os canteiros. Essas técnicas têm a vantagem de assegurar maior estabilidade do sistema produtivo, reduzindo normalmente os problemas com pragas e doenças. Sistemas diversificados podem diminuir a incidência de pragas e aumentar a atividade de inimigos naturais. Entre outras vantagens, a vegetação espontânea pode colaborar para a ciclagem de nutrientes de fácil mobilidade e, por cobrirem o solo, podem protegê-lo contra a erosão.

Quais as plantas espontâneas indicadoras de solo pobre ou quimicamente desequilibrado?

Algumas das principais plantas indicadoras de solo pobre ou desequilibrado estão listadas na Tabela 4.

 Tabela 4. Plantas indicadoras de solo pobre ou desequilibrado.

      Planta espontânea    
            Características indicadoras
Amendoim-bravo ou leiteiro  (Euphorbia heterophylla)
Desequilíbrio entre nitrogênio (N) e micronutirentes, sobretudo molibdênio (Mo) e cobre (Cu)
Azedinha (Oxalis oxyptera)
Solo argiloso, pH baixo, falta de cálcio (Ca), falta de molibdênio
Barba-de-bode (Aristilla pallens)
Terra de queimadas, pobreza em fósforo (P), cálcio, potássio (K), solos com pouca água
Cabelo-de-porco (Carex spp.)
Pouco cálcio (Ca)
Capim-amargoso ou capim-açu (Digitaria insularis)
Solos de baixa fertilidade
Capim-caninha ou capim-colorado (Andropogon incanis)
Solos temporariamente encharcados, periodicamente queimados e com deficiência de fósforo (P)
Capim-arroz (Echinochloa crusgalli var. crusgalli)
Solo rico em elementos tóxicos, como o alumínio na forma reduzida
Capim-marmelada ou papuã (Brachiaria plantaginea)
Típico de solos constantemente arados, gradeados, com deficiência de zinco (Zn)
Capim-rabo-de-burro (Andropogon sp.)
Indica solos ácidos com baixo teor de cálcio, camada impermeável entre 60 cm e 120 cm de profundidade
Capim-amoroso ou carrapicho (Cenchrus ciliatus)
Terra de lavoura empobrecida e muito compacta, pobre em cálcio (Ca)
Caraguatá (Eryggium ciliatum)
É freqüente em solos onde se praticam queimadas, com húmus ácido
Carrapicho-de-carneiro (Acanthosperum hispidum)
Deficiência em cálcio (Ca)
Cavalinha (Equisetum SP.)
Solo com acidez de média a elevada
Guanxuma (Sida spp.)
Quando tem um baixo crescimento, indica que o solo é pouco fértil
Mio-mio (Bacharis coridifolia)
Deficiência de molibdênio (Mo)
Nabo (Raphanus raphanistrum)
Deficiência de boro (B) e manganês (Mn)
Picão-branco (Galinsoga parviflora)
Solo com excesso de nitrogênio (N) e deficiente em micronutrientes. É beneficiado pela deficiência de cobre (Cu)
Samambaia (Pteridium auilinum)
Solo com altos teores de alumínio (Al) tóxico
Sapé (Imperata exaltata)
Solos ácidos. Ocorre também em solos deficientes em magnésio (Mg)
Tiririca (Cyperus rotondus)
Solo ácido, com carência de magnésio (Mg)
Urtiga (Urtica urens)
Carência em cobre (Cu)



Quais as plantas espontâneas indicadoras de solo fértil?
Entre as plantas indicadoras de solo fértil, pode-se citar a beldroega (Portulaca oleracea), a chirca (Ruppatorium sp.), o dentede-leão (Taraxum oficialis) e a guanxuma (Sida spp.). 

A incidência de plantas espontâneas pode variar de acordo com o tipo de hortaliça cultivada?
 Sim. A incidência de plantas espontâneas em áreas de cultivo de hortaliças depende de vários fatores, que variam de acordo com o tipo de hortaliça, uma vez que são cultivadas em diferentes espaçamentos, arranjos e densidades populacionais. Além disso, as hortaliças têm diferentes taxas de crescimento e arquitetura, que resultam em diferenças nos índices de área foliar, cobertura do solo e graus de interceptação da luz solar, fator essencial para o estímulo, germinação de sementes e ocorrência de plantas espontâneas. As hortaliças que conseguem cobrir mais rapidamente o solo geralmente reduzem a incidência de plantas espontâneas na área cultivada.

 O que é alelopatia?
O termo alelopatia, segundo o interesse específico da área de manejo de plantas invasoras, refere-se aos efeitos biológicos negativos das plantas de uma espécie vegetal sobre o desenvolvimento e o crescimento de plantas de outra espécie, resultantes da liberação de substâncias químicas orgânicas no ambiente comum. Assim, algumas plantas (cultivadas ou não) complementam sua agressividade pela liberação de substâncias tóxicas ou substâncias inibidoras de crescimento chamadas de aleloquímicos, por meio de exsudações pelas raízes e lixiviação da matéria orgânica produzida. Em geral, essas substâncias modificam o crescimento das espécies que as absorvem, reduzindo ou eliminando sua habilidade de competição. A comprovação dos efeitos diretos dos aleloquímicos nas condições de campo é difícil, sendo preciso separar a alelopatia de outras formas de interferência negativa, especialmente a competição. Vários trabalhos na literatura demonstram que as hortaliças são bastante suscetíveis aos aleloquímicos. As leguminosas mucuna-preta e feijão-de-porco mostraram-se eficientes no processo de competição, alelopatia e na redução do banco de sementes do solo.

Qual a alternativa para reduzir a presença de plantas espontâneas no início do cultivo de hortaliças?
A presença de plantas espontâneas no início do cultivo de hortaliças pode ser reduzida com técnicas de manejo em pré- semeadura ou no transplante das mudas. Pode-se, também, planejar o uso de glebas associado a um programa de solarização dos talhões no período de altas temperaturas antes do plantio. O preparo do solo e a pré-irrigação estimulam a germinação e o desenvolvimento das plantas invasoras. Recomenda-se fazer o preparo do solo de 3 a 4 semanas antes do plantio para permitir a germinação, o crescimento inicial e o controle pós-emergente das plantas emersas e em processo de germinação, com capina manual, gradagem ou encanteiramento, de forma superficial para evitar revolver muito o solo novamente e provocar novos estímulos de germinação de outras sementes. O controle de plântulas espontâneas também pode ser feito com fogo produzido por bicos aplicadores a gás, no início ou por ocasião do primeiro cultivo da hortaliça.

Como pode ser feito o controle da vegetação espontânea no cultivo orgânico?
Em conformidade com a Instrução Normativa nº 007, o manejo das plantas invasoras deve ser feito pelo emprego de uma ou mais das seguintes técnicas:
• Cobertura vegetal do solo, viva ou morta.
• Meios mecânicos de controle.
• Rotação de culturas.
• Alelopatia.
• Controle biológico.
• Cobertura inerte, que não cause contaminação e poluição, a critério da certificadora. • Solarização.
• Sementes e mudas isentas de plantas invasoras.

O que é capina seletiva?
Capina seletiva consiste em arrancar as plantas espontâneas que estão amadurecendo, que já cumpriram com seu papel ecofisiológico, mantendo apenas as plantas jovens. A capina seletiva deve eliminar somente as espécies mais agressivas e/ou que estejam interferindo biologicamente na cultura. A matéria orgânica capinada é deixada sobre o solo. A análise do período em que as espécies de plantas invasoras competem com as hortaliças por fatores de crescimento é importante, e a época e a duração do período em que a cultura e as plantas espontâneas coexistem exercem influência na intensidade da interferência biológica.

É verdade que o esterco de gado é uma das maiores fontes de sementes de plantas espontâneas?
 Sim. O uso de suplementos orgânicos pode constituir-se em fonte de plantas invasoras ou espontâneas, sobretudo se o esterco de gado não tiver sido suficientemente tratado antes da sua aplicação no solo. Por exemplo, cerca de 20 % das sementes de ançarinha-branca (Chenopodium album) permaneceram viáveis no estrume curtido de gado (1 kg de esterco continha 42 sementes viáveis). O uso de compostagem pode aliviar esse problema, pois as temperaturas normalmente alcançadas durante esse processo são suficientemente altas para matar a maioria das sementes. Observou-se a perda total da viabilidade das sementes de várias espécies após a compostagem do esterco de gado por 4 semanas, alcançando temperaturas de 55oC a 65oC. Para uma redução significativa da viabilidade das sementes, a temperatura requerida deve ficar acima  de 46 o C, sendo o tempo de compostagem menos importante do que a temperatura requerida.

O que é banco de sementes?
O banco de sementes do solo (BSS) é uma reserva de sementes e de propágulos vegetativos presentes na superfície e no interior do solo, composta de sementes novas produzidas anualmente e de sementes “velhas” que persistem vivas no solo por vários anos ou mesmo décadas. O banco de sementes do solo representa um “arquivo de informações” sobre as condições ambientais e as práticas culturais usadas, sendo inclusive um fator importante de avaliação do potencial de infestação das plantas invasoras, no presente e no futuro. Seu estudo permite estabelecer as relações quantitativas entre as populações de plantas presentes, sendo muito importante para os programas de manejo integrado. Práticas inadequadas de manejo tendem a aumentar o banco de sementes das plantas invasoras no solo, agravando ainda mais o problema em cultivos sucessivos.

Como ocorre a disseminação de sementes de plantas espontâneas?
Estima-se que apenas 1 % a 9 % das sementes viáveis produzidas em determinado ano germinam naquele mesmo período, ficando o resto com germinação escalonada para os anos subseqüentes, dependendo do nível de dormência, da distribuição no perfil do solo e dos estímulos recebidos para germinar. O tamanho e a composição botânica do BSS variam de acordo com os sistemas de cultivo. As sementes de espécies cultivadas geralmente não são muito competitivas porque têm baixa longevidade e rápida germinação.

Qual a importância do banco de sementes nos sistemas agroecológicos?

A grande diversidade de espécies de plantas espontâneas que infestam as áreas de cultivo de hortaliças está normalmente associada a ambientes com distúrbios constantes. Isso ocorre principalmente em virtude de suas características biológicas e reprodutivas que promovem elevada produção de sementes, eficiente dispersão de algumas espécies, dormência e longevidade das sementes e sobrevivência das plantas. Essas características, aliadas às peculiaridades do manejo, normalmente, contribuem para a geração de grandes bancos de sementes no solo, o que garante o potencial regenerativo de várias espécies. Assim, o BSS constitui– se na principal fonte das plantas espontâneas que ocorrem nos sistemas agroecológicos. Que práticas culturais utilizadas em sistemas orgânicos de produção contribuem para o manejo e/ou controle das plantas espontâneas? Vários autores relataram que a rotação de culturas e o uso de adubos verdes reduzem o tamanho do banco de sementes no solo. As seqüências de cultivos propiciam diferentes modelos de competição, alelopatia e distúrbios do solo, com variação da pressão de seleção para plantas invasoras específicas. Isso se deve ao fato de que cada cultura apresenta uma gama de plantas “associadas” variando normalmente com a localização geográfica. O uso de adubos orgânicos e a água de irrigação podem constituir-se em fonte de introdução de sementes ou de propágulos vegetativos de plantas na área cultivada.

Por que a tiririca é tão agressiva?
 O crescimento da tiririca é intenso, e normalmente superior ao das culturas anuais, por ser uma planta perene fisiologicamente eficiente, resistindo a muitas das práticas de controle comumente usadas na olericultura. De cada clone (conjunto de bulbos basais, rizomas e tubérculos geneticamente idênticos e interconectados) emerge grande número de plantas, formando altas densidades populacionais. Os tubérculos e bulbos basais são o principal local de crescimento vegetativo prolífico porque contêm as gemas para folhas, rizomas, raízes e haste floral. Os tubérculos, por sua vez, são produzidos nos rizomas, constituindo a unidade primária de reprodução e dispersão. As sementes têm taxa de germinação em torno de 5 %, no caso da tiririca-roxa, sendo consideradas de pouca importância para o estabelecimento e dispersão, pois o vigor e a sobrevivência de suas plântulas são muito baixos. Como ocorre a disseminação

Como ocorre a disseminação da tiririca nos sistemas de produção agrícola ?
 A disseminação da tiririca, tanto a curta quanto a longa distância, é feita, em geral, pelo homem mediante os seguintes mecanismos:
• Utilização de equipamentos agrícolas, como máquinas, implementos e ferramentas, com tubérculos ou plantas inteiras aderidos juntamente com resíduos vegetais ou restos de solo, os quais são disseminados durante as rotinas de preparo do solo, plantio e trânsito em geral.
• Aplicação de matéria orgânica com tubérculos e plantas de tiririca.
• Uso de substrato em bandejas e mudas de hortaliças com torrões contaminados com tubérculos, sementes e plantas de tiririca.
• Colheita, transporte, comercialização e descartes de produtos agrícolas contaminados com propágulos de tiririca. Os tubérculos de tiririca são capazes de se desenvolver dentro de tubérculos de batata e de raízes tuberosas, podendo inclusive misturar-se a hortaliças folhosas, a tubérculos e raízes durante a colheita e transporte. • Transporte de tubérculos, sementes, bulbos basais ou plantas de tiririca pela enxurrada e água dos canais de irrigação.

Como manejar a tiririca nos sistemas orgânicos de produção?
 Como normalmente os métodos de controle não impedem a reprodução de todas as partes das plantas, deve-se manter as medidas de controle continuadamente, ano após ano. Assim, o conceito de controle, independente do método, deve ser amplo, de forma que possa ser utilizado durante o ano todo e em anos sucessivos. O conjunto e a integração de todas as práticas, métodos ou tecnologias utilizadas nos ciclos de cultivos anuais e plurianuais constituem-se no que se denomina de “manejo integrado”. O controle da tiririca só pode ser alcançado com a combinação de métodos de controle (cultural, mecânico e biológico) concentrando-se nas fases de inibição da brotação dos tubérculos e/ou na inibição ou paralisação da formação e desenvolvimento de novos tubérculos a fim de reduzir gradativamente o banco de tubérculos existente no solo. Como a tiririca é muito sensível ao sombreamento, deve-se cultivar hortaliças com espaçamento o mais estreito possível e usar cultivares de desenvolvimento rápido e que produzam grande massa foliar, como a batata-doce, para reduzir o crescimento e a agressividade da tiririca.

Como é feito o controle mecânico da tiririca?
O método de controle mecânico, por meio do preparo do solo, de capinas ou cultivos, controla temporariamente a tiririca. O principal objetivo do cultivo é trazer os tubérculos para a  superfície do solo, induzir a brotação e reduzir seu número pela dessecação provocada pelos raios solares, principalmente em regiões áridas ou em épocas de seca, ou pelo bloqueio da formação de novos tubérculos por cultivos sucessivos. O tempo necessário para matar os tubérculos varia de 7 a 14 dias em condições de seca e sol forte. Em geral, a primeira brotação dos tubérculos reduz suas reservas energéticas em até 60 %. Os cortes, capinas ou cultivos sucessivos induzem um crescimento menos vigoroso por causa do consumo de aproximadamente 10 % das reservas de carboidratos a cada corte realizado. Pelo menos 2 anos de controle mecânico quinzenal são requeridos para reduzir a população de tiririca a níveis satisfatórios de manejo. A manutenção da área livre de culturas facilita o trabalho. O uso da cobertura com material inerte (plasticultura) e da solarização destacam-se entre as medidas mais eficientes para o manejo da tiririca nos sistemas agroecológicos.

Já existe controle biológico da tiririca?
 Muitos trabalhos foram realizados com o objetivo de regular a população de tiririca a níveis aceitáveis com o controle biológico clássico envolvendo o uso de insetos inimigos naturais. Entretanto, nenhum dos agentes testados produziu resultados satisfatórios em virtude da baixa especificidade na relação inseto-tiririca, baixo estabelecimento do agente e incapacidade para controlar o crescimento ou rebrote da tiririca. O melhor exemplo de controle biológico da espécie C. esculentus foi desenvolvido na década de 1990, nos Estados Unidos, com o fungo da ferrugem (Puccinia canaliculata (Schw) Lagerh.). O bio-herbicida é composto por um parasita obrigatório (o fungo da ferrugem) e assim só pode ser produzido em plantas vivas, não tendo a indústria grande interesse comercial em sua produção. O fungo da ferrugem é mantido em plantas de tiririca durante o inverno, em condições de casa de vegetação, levando-se as plantas infectadas ao campo quando a população de tiririca estiver  aparecendo na cultura. Dessa forma, a doença alcança os níveis epidêmicos no início da estação de cultivo, causando a desidratação das raízes, reduzindo o florescimento e a formação de tubérculos, provocando a morte de plantas e reduzindo a competitividade da tiririca com as hortaliças.

O que é solarização?
 A solarização é um processo físico de desinfestação do solo que consiste na cobertura do solo úmido com plástico de polietileno transparente, na estação quente do ano, antes do plantio. O solo é mantido coberto com o plástico por cerca de 30 a 60 dias. Durante esse período, ocorre o efeito estufa, que aquece o solo, principalmente nas horas mais quentes do dia, provocando a morte de sementes e propágulos de plantas invasoras e de fitopatógenos que sobrevivem no solo. A aplicação da solarização só deve ser feita nos períodos do ano com maiores temperaturas e radiação solar, para garantir a eficiência do aquecimento do solo coberto pelo plástico.

Como aplicar a solarização na propriedade?
Para aplicar a solarização, a área a ser plantada deve ser bem preparada com aração e gradagem. A superfície deve ficar livre de torrões grandes e galhos que possam romper o plástico. As adubações e calagens necessárias devem ser feitas antes da colocação do plástico, para evitar o revolvimento do solo após a solarização. Toda a área deve ser bem irrigada (até a capacidade de campo), pois o efeito da solarização depende do calor e da umidade. Logo após a irrigação, o solo deve ser coberto com plástico de polietileno transparente com 75 micras a 100 micras de espessura. As bordas do plástico devem ser enterradas à profundidade de 20 cm para reter o calor e a umidade. O plástico deve ser colocado bem esticado e rente ao solo para evitar a formação de bolsões de ar, o que reduz a eficiência do processo e 295 296 193 facilita o rompimento do plástico pelo vento. Recomenda-se a cobertura do solo com o plástico por 30 a 60 dias dependendo da infestação da área a ser tratada, sempre nos períodos do ano com maior temperatura e radiação solar. Após esse período, o plástico é removido, podendo ser guardado para reutilização. Em casas de vegetação teladas, além da cobertura do solo com o plástico, recomenda-se cobrir também as telas laterais, para permitir maior aumento da temperatura durante a solarização.

Como funciona a solarização no controle de plantas espontâneas?
A solarização provoca o aumento diário da temperatura do solo, que atinge cerca de 40 °C a 45 °C, à profundidade de 20 cm, e de 50 °C a 60 °C, a 5 cm, nas horas mais quentes do dia. A flutuação de temperaturas durante o dia, associada à umidade do solo, provoca a morte de sementes e propágulos de plantas invasoras, o que reduz consideravelmente sua emergência na área solarizada e a necessidade de capinas. Durante o processo de solarização, o crescimento de plantas sob o plástico é impedido pelas altas temperaturas e as que conseguem germinar são queimadas rapidamente. A ausência de crescimento de plantas invasoras sob o plástico durante a solarização é um indicativo de que esse processo está sendo realizado corretamente e na época do ano adequada. Após a retirada do plástico, o crescimento de plantas invasoras é bastante reduzido, por causa da morte de parte significativa das sementes e propágulos presentes no solo, pela ação direta do calor, pela queima de plântulas germinadas ou pela alteração no balanço de gases no solo durante a solarização que afeta a sobrevivência das plantas. Mas é bem provável que o principal fator da morte seja o calor. A sensibilidade das plantas depende de suas características biológicas, da umidade e da profundidade das sementes durante o tratamento. Estudos estão sendo realizados para determinar que espécies são mais sensíveis ou resistentes ao processo. Para garantir maior eficiência da solarização, recomenda-se não revolver o solo após o tratamento, para não trazer à superfície as sementes que sobreviveram em maiores profundidades.

A solarização também funciona para o controle de doenças?
A solarização é uma técnica de desinfestação do solo inicialmente desenvolvida para o controle de doenças causadas por patógenos que sobrevivem e se acumulam no solo. A solarização tem sido usada no controle de fungos, nematóides e bactérias causadores de podridões e murchas nas plantas. A eficiência do método depende da intensidade da infestação da área, da aplicação correta da solarização na época adequada e até do uso em conjunto com outros métodos de controle. O efeito da solarização no controle de patógenos do solo ocorre por causa do aumento da temperatura que provoca a morte dos microrganismos patogênicos e do aumento do controle biológico em virtude do favorecimento de microrganismos antagonistas. Esses microrganismos são prejudiciais aos patógenos do solo e sobrevivem bem ao processo de solarização. Diversos estudos estão sendo feitos para determinar as condições mais adequadas de solarização a fim de melhorar o controle de patógenos importantes em diversas culturas. As pesquisas realizadas no Brasil e no exterior já evidenciaram o controle de patógenos causadores de murchas e podridões de raízes incluindo fungos (Phytophthora, Pythium, Sclerotium, Sclerotinia, dentre outros), bactérias (Ralstonia solanacearum, Agrobacterium) e nematóides (Meloidogyne incognita, etc.).

O efeito da solarização persiste por quanto tempo?
O efeito da solarização no controle de plantas invasoras pode ser visualizado durante o período de cultivo, mas a duração desse efeito é afetada por fatores como espécies de plantas espontâneas presentes na área, intensidade de infestação, métodos de preparo do solo utilizados na propriedade, manejo da cultura, etc. O efeito sobre o controle de fitopatógenos do solo pode se prolongar por mais de uma estação de cultivo em virtude do estímulo que a solarização traz ao controle biológico por microrganismos do solo. Dependendo do manejo da cultura, da rotação e das cultivares utilizadas, pode-se prolongar os efeitos da solarização no controle de doenças causadas por fitopatógenos do solo por mais de um ano de cultivo.

Já existem exemplos práticos de aplicação da solarização na produção de hortaliças orgânicas?
 No Brasil, os exemplos são na maioria experimentais em virtude de a solarização ainda ser uma técnica pouco conhecida pelos produtores. Em estudos sobre o efeito da solarização em população infestante de tiririca (Cyperus rotundus) realizados na Embrapa Agrobiologia, verificou-se que a solarização do solo tornou desnecessária a capina durante o período de cultivo da cenoura e feijão-de-vagem em sistema orgânico, reduzindo a necessidade de mão-de-obra. Nas áreas não solarizadas, foi preciso fazer capina nos primeiros 30 dias de cultivo. O controle, entretanto, não foi total, pois a tiririca é uma das espécies mais tolerantes às temperaturas elevadas. O conhecimento dos benefícios da solarização, porém, ainda é restrito e sua principal limitação é a escolha da época adequada do ano, pois essa é uma técnica dependente das condições climáticas. A definição da melhor estratégia para inserir o processo de solarização na seqüência de cultivos nas propriedades, em um sistema de manejo integrado, e a maior divulgação da técnica são importantes para que a solarização seja utilizada de forma eficiente pelos produtores.

A solarização é aceita pelas certificadoras?
A solarização é permitida na agricultura orgânica, de acordo com a Instrução Normativa no 7, sendo citada especificamente no 300 301 196 Anexo III, que trata da produção vegetal, indicada para o manejo de plantas invasoras. Dentre as certificadoras, o Instituto Biodinâmico (IBD), na 12a edição de suas Diretrizes para o Padrão de Qualidade, determina que serão permitidos o controle térmico de invasoras e os métodos físicos para o controle de pragas, doenças e manejo de plantas invasoras. O uso de cobertura de polietileno também é permitido desde que seja removido do solo após o uso. Nas Normas de Produção Orgânica, da Associação de Agricultura Orgânica (AAO), é permitido o uso de métodos físicos e mecânicos, incluindo o uso do calor.

A solarização pode afetar negativamente os organismos benéficos do solo?
 O aquecimento do solo produzido pela solarização provoca alterações na comunidade microbiana do solo como um todo. No entanto, os microrganismos patogênicos tendem a ser mais afetados pela solarização, pois são menos competitivos no solo que os microrganismos não patogênicos ou saprófitas. Os microrganismos saprófitas, dentre os quais estão muitos microrganismos responsáveis pelo controle biológico de doenças e pela promoção do crescimento das plantas, são adaptados para sobreviver decompondo a matéria orgânica do solo. A solarização provoca redução na população de alguns microrganismos benéficos, mas eles se recuperam rapidamente após o tratamento, recolonizando o solo. Esse aumento na população de microrganismos benéficos provoca um efeito positivo no crescimento das plantas, após a solarização, e um efeito de controle biológico sobre os patógenos do solo. Alguns grupos de bactérias chegam a aumentar sua população cerca de 20 vezes no solo solarizado. Embora a atividade microbiana total do solo sofra pequena redução, observa-se, ao mesmo tempo, um aumento na atividade supressiva do solo em relação aos patógenos, indicando o aumento na população de microrganismos relacionados ao controle biológico. A extensão e a duração dos efeitos da solarização sobre 302 197 diversos grupos de microorganismos estão sendo avaliadas em trabalhos de pesquisa, mas verifica-se que, em geral, os organismos benéficos são pouco afetados pelo processo de solarização. Deve-se considerar que a microbiota do solo responde rapidamente a qualquer interferência nesse ambiente, como o preparo do solo, a irrigação, as alterações climáticas, e a solarização do solo não escapa à regra.



sábado, 10 de junho de 2017

PERGUNTAS E RESPOSTAS SOBRE PRODUÇÃO ORGÂNICA DE HORTALIÇAS Capítulo 10: Manejo de Doenças

Fonte: Livro da Embrapa Hortaliças – Brasília, DF. Interessados em adquirir o livro “PRODUÇÃO ORGÂNICA DE HORTALIÇAS – Coleção 500 Perguntas – 500 Respostas” devem entrar em contato através do email: vendas@sct.embrapa.br; Para ver o livro completo, acessar: http://mais500p500r.sct.embrapa.br/view/pdfs/90000021-ebook-pdf.pdf

     Com o objetivo de divulgar e aumentar o conhecimento sobre agricultura orgânica,  estamos transcrevendo  do livro, algumas perguntas e respostas que consideramos mais relevantes.

Capítulo 10 – Manejo de Doenças

Autores:  Wagner Bettiol e Marcelo A.B. Morandi

Qual a diferença entre uma planta sadia e uma planta doente?
     Uma planta sadia é capaz de conduzir todas as funções fisiológicas normalmente, sem apresentar nenhuma anormalidade ou disfunção, seja em seu crescimento, na fotossíntese, na respiração, na absorção de nutrientes, na produção e distribuição de fotoassimilados, no florescimento, na frutificação, etc. Uma planta doente apresenta alguma desordem fisiológica que altera seu desenvolvimento. Para caracterizar uma doença, essa desordem fisiológica deve apresentar mais duas características: ser uma irritação contínua e ser provocada por um agente causal primário. Quando o agente causal é um organismo vivo (fungo, bactéria, vírus, nematóide, viróide, protozoário, micoplasma e outros), a doença é denominada biótica e é considerada infecciosa, ou seja, o patógeno pode crescer e multiplicar-se na planta doente e se disseminar para outras plantas sadias.

O que são patógenos de plantas?
     Qualquer organismo capaz de causar uma doença é denominado patógeno. Os organismos que causam doenças em plantas são chamados de fitopatógenos. Os principais fitopatógenos são: fungos, bactérias, vírus, viróides, protozoários, nematóides, micoplasmas e espiroplasmas. Os patógenos mais importantes para hortaliças são os fungos, as bactérias, os vírus e os nematóides.

Como ocorrem as doenças em hortaliças?
     Para que ocorra uma doença em hortaliças e nas demais plantas é necessária a interação de três fatores: um hospedeiro (planta), um patógeno e o ambiente. Esses três fatores formam o “triângulo de doenças”. Para haver doença é indispensável que o ambiente seja favorável ao patógeno, que o hospedeiro (planta) seja suscetível ao patógeno e que o patógeno esteja presente e seja capaz de causar doença. Uma vez que essas três condições ocorram simultaneamente, o processo da doença pode ter início.

O que são sintomas e sinais de doenças?
Os sintomas são a expressão da doença, ou seja, o conjunto das várias alterações fisiológicas e morfológicas que ocorrem durante e após a infecção. Os sintomas variam de doença para doença, sendo os mais comuns:
• Manchas foliares.
• Necrose de tecidos.
• Amarelecimento.
• Clorose.
• Deformação dos órgãos vegetais.
• Redução do crescimento.
• Podridões.
• Murchas.
• Tombamentos de mudas.
• Morte de ponteiros.
     Normalmente, os sintomas de uma doença não são visíveis a olho nu logo de imediato. O período de tempo entre a infecção e o aparecimento dos sintomas é denominado período de incubação. A extensão desse período depende do patógeno, das condições de ambiente e do estádio de desenvolvimento e da resistência do hospedeiro. Os sinais são as estruturas do patógeno que se formam nas diferentes partes da planta e tornam-se visíveis. Exemplos de sinais mais comuns são os esporos, os micélios, os escleródios e outras estruturas reprodutivas no caso de fungos; pus, no caso de bactérias; e ovos, no caso de nematóides, etc.
     As doenças em plantas resultam da interação entre o patógeno, o hospedeiro e o ambiente.

As doenças só ocorrem quando há um desequilíbrio?
     As doenças de plantas ocorrem na natureza com o objetivo de manter, em parte, o equilíbrio biológico e a ciclagem de nutrientes, sendo benéficas sob esse ponto de vista. Na natureza, em ecossistemas em equilíbrio, observa-se a incidência de doenças, porém estas ocorrem de forma endêmica ou isolada. Não ocorrem epidemias que poderiam destruir as plantas ou provocar prejuízos graves, uma vez que isso colocaria em risco a sobrevivência dos próprios patógenos.
     Nas áreas cultivadas, porém, é freqüente a ocorrência de epidemias, pois a interferência humana altera o equilíbrio da natureza. Uma das condições que favorecem o aumento da população de patógenos e a ocorrência de epidemias é o cultivo de plantas geneticamente homogêneas, no espaço (áreas contínuas) e no tempo (cultivos sucessivos), o que é contrário à diversidade de variedades e espécies que ocorrem na natureza e que são indispensáveis na agricultura orgânica.

Como fazer para restabelecer o equilíbrio e reduzir a incidência de doenças?
     O resgate dos princípios e mecanismos que operam nos sistemas da natureza pode auxiliar na obtenção de sistemas agrícolas mais sustentáveis. Em sistemas de cultivo caracterizados pela mistura de culturas (policulturas, consórcios), por exemplo, as espécies suscetíveis podem ser cultivadas em densidades menores e o espaço entre elas ocupado por plantas resistentes que interessam ao produtor. A densidade menor de plantas suscetíveis e a barreira oferecida pelas plantas resistentes dificultam a disseminação do patógeno, reduzindo a quantidade de inóculo no campo.
     Além do aumento da diversidade no espaço, o aumento da diversidade no tempo, por meio da rotação de culturas, também permite que os processos biológicos auxiliem na proteção de plantas, como ocorre no controle de diversos fitopatógenos veiculados pelo solo.

Quais as vantagens da diversificação de culturas no manejo de doenças no sistema orgânico?
     A diversificação de culturas nas propriedades rurais, além dos benefícios agronômicos e econômicos, traz benefícios sociais, pois estende o período de tratos culturais e aumenta a necessidade de mão-de-obra, sendo esse aspecto parte integrante da sustentabilidade. Entretanto, a indiscriminada diversificação da vegetação dentro de um agroecossistema pode não resultar na redução do risco de ocorrência de pragas e doenças. Os efeitos de combinações planejadas de plantas devem ser estudados criteriosamente ante de sua aplicação em programas de manejo. Em diversas propriedades que adotam o cultivo orgânico de hortaliças, os benefícios da diversidade são suficientes para que as doenças não provoquem limitações na produtividade.

Quais as principais doenças causadas por fungos em hortaliças?
 As principais doenças causadas por fungos em hortaliças estão listadas na Tabela 2.
   
Tabela 2. Principais doenças causadas por fungos em hortaliças.
Doença   
Principais patógenos envolvidos
Principais culturas afetadas
Tombamento
Pythium spp., Phytophthora spp., Rhizoctonia spp., Alternaria spp.
Mudas de hortaliças em geral
Podridão ou murcha de Esclerotinia e Esclerotium
Sclerotinia sclerotiorum, Sclerotium rolfsii, S. cepivorum
Tomate, repolho, alface, cenoura, ervilha, pimentão, feijão-de-vagem, cebola
Murcha
Fusarium oxysporum (várias formas specialis), Verticillium spp.
Tomate, repolho, cebola, berinjela, jiló, feijão-de-vagem, batata
Requeima
Phytophthora spp., Phytophthora spp.
Tomate, batata, pimentão
Míldio
Peronospora spp., Bremia sp., Pseudoperonospora spp.
Repolho, alface, cebola, pepino, ervilha
Antracnose
Colletotrichum spp.
Pimentão, cebola, berinjela, jiló, pepino, feijão-de-vagem
Manchas foliares
Diversos gêneros de fungos (Alternaria, Cercospora, Stemphylium, Septoria, Mycosphaerella, Botrytis Leandria, Ascochyta e outros)
Todas as hortaliças em geral são afetadas por manchas foliares
Oídio
Sphaerotheca sp., Oidium sp., Erysiphe spp.
Pepino e outras cucurbitáceas, ervilha, feijão-de-vagem
Ferrugem
Puccinia spp., Uromyces spp.
Cebola, alho, feijão-de-vagem

Que bactérias provocam doenças em plantas e quais seus sintomas?
     As bactérias que provocam doenças em plantas são denominadas bactérias fitopatogênicas, algumas muito importantes para hortaliças. Elas se disseminam rapidamente e são de difícil controle. Em condições favoráveis, a ocorrência de bacterioses pode inviabilizar a exploração econômica de algumas culturas por longos períodos, como ocorre em solos infestados com Ralstonia solanacearum, causadora da murchadeira-do-tomateiro e da batateira. Os principais gêneros de bactérias causadoras de doenças em hortaliças e os tipos gerais de sintomas que elas provocam estão listados na Tabela 3.

 Tabela 3. Principais gêneros de bactérias e seus sintomas.
Gênero 
Sintomas
Principais plantas afetadas
Clavibacter
Murcha e cancro
Tomate, pimentão
Curtobacterium
Murcha
Feijão-de-vagem, ervilha
Erwinia
Podridão-mole
Cenoura, repolho, hortaliças
Pseudomonas
Murcha
Solanáceas
Ralstonia
Murcha
Solanáceas
Xanthomonas
Mancha foliar
Solanáceas, brássicas, outras

Como ocorre a transmissão de vírus e como é feito o controle das viroses?
     A transmissão por insetos é o meio de disseminação mais comum e mais importante dos vírus de plantas, na natureza. Outros meios de propagação incluem:
• Contato entre plantas, como ocorre com a transmissão do vírus-do-mosaico-do-fumo (TMV) em tomateiro pelo atrito entre folhas de plantas doentes e sadias.
• Solo, diretamente ou por nematóides e fungos.
• Sementes e pólen.
• Propagação vegetativa de plantas, como estaquia, enxertia, tubérculos, bulbos, bulbilhos, estolhos, rizomas, raízes, etc.
As medidas de controle das viroses vegetais fundamentam-se em três estratégias, todas de caráter preventivo:
• Obtenção e utilização de material propagativo livre de vírus.
• Controle antecipado de vírus e de seus vetores pela eliminação de plantas espontâneas que servem de hospedeiros alternativos para certos vírus.
• Redução ou impedimento de introdução do patógeno na cultura e de sua disseminação entre as plantas.

Quais os sintomas das doenças causadas por nematóides?
     Todas as espécies de plantas cultivadas estão sujeitas ao ataque de alguma espécie de nematóide. Entretanto, sua presença é às vezes pouco notada pelos agricultores por causa de seu tamanho reduzido e da dificuldade em identificar alguns dos sintomas causados por nematóides nas plantas atacadas, que podem ser confundidos com os de deficiência mineral ou de outras doenças. Quando penetram e se movimentam nos tecidos das plantas e deles se alimentam, os nematóides causam danos mecânicos e retiram nutrientes da planta para seu próprio sustento, depauperando-a. O ataque de nematóides também pode tornar as plantas mais suscetíveis ao ataque de outros patógenos, como fungos e bactérias.

A “pipoca” das raízes de hortaliças é causada por nematóides?
     Sim, a “pipoca” é causada por Meloidogyne, o principal gênero de fitonematóide de importância para hortaliças, também conhecido como o nematóide-das-galhas. As galhas são en- 255 256 167 grossamentos, de diâmetros variáveis, quase sempre observados nas raízes infestadas pelo nematóide. Galhas formadas em tubérculos, como em batata, são popularmente chamadas de “pipocas”.
     Outros sintomas associados ao ataque de Meloidogyne nas raízes são:
 • Redução do volume de raízes.
• Rachaduras.
• Raízes digitadas (comum em cenouras, por exemplo).
     Na parte aérea, podem ser observados sintomas como:
• Amarelecimento (geralmente em reboleiras).
• Sintomas de deficiência mineral.
• Murchas. • Desfolhamento.
• Diminuição da produção.

Que medidas devem ser tomadas antes do plantio para evitar a ocorrência de doenças?
     O controle de uma doença deve ser entendido como uma série de medidas que começa com a decisão de implantar a cultura. Assim, o controle deve ser visto como um conjunto de ações integradas para evitar a ocorrência da doença e de perdas. De modo geral, recomenda-se:
• Plantar variedades ou cultivares resistentes às principais doenças que ocorrem na região e no período de cultivo.
• Adquirir sementes e mudas de boa qualidade, uma vez que diversos patógenos são transmitidos pelas sementes e mudas.
• Fazer o cultivo diversificado de hortaliças, para aumentar a diversidade de espécies na área.
• Adubar com material orgânico de origem conhecida e preferencialmente compostado adequadamente.

Que cuidados são importantes, durante o cultivo, para evitar a ocorrência de doenças ou reduzir seu efeito?
 Durante o cultivo, deve-se adotar um conjunto de medidas preventivas:
• Se a cultura exigir desbrota, evitar fazê-la em dias chuvosos ou logo após a irrigação. • Utilizar ferramentas devidamente desinfestadas.
• Evitar ferimentos nas plantas e frutos durante os tratos culturais.
• Manter quantidade adequada de plantas espontâneas.
• Manejar adequadamente a irrigação de modo a evitar encharcamento ou falta de água e utilizar água de boa qualidade.
• Avaliar com freqüência a plantação para verificar eventuais problemas com doenças e, encontrando focos, retirar o material doente e enterrá-lo.
• Fazer o controle de pragas e doenças com os produtos recomendados, como os extratos de plantas, agentes de controle biológico e outros.

Como é feito o diagnóstico de doenças?
     O diagnóstico da doença ou a identificação de sua causa é a etapa fundamental para a implementação de medidas de controle. Dependendo da doença, o diagnóstico pode ser feito no campo por extensionista experiente ou agrônomo especializado na cultura. Um dos modos mais simples de se fazer um diagnóstico preliminar é comparar os sintomas com fotografias ou descrições de publicações. Outros fatores, como deficiência ou toxidez nutricional, características genéticas da planta, ação de insetos, excesso ou falta de água ou mudanças climáticas, podem causar sintomas parecidos com os das doenças.
     Em caso de dúvidas, o melhor é enviar o material a um laboratório de fitopatologia de universidades ou de instituições de pesquisa. É necessário entrar em contato diretamente com cada instituição para saber se o laboratório executa diagnóstico de determinada cultura ou de agente causal e também para conhecer os critérios de encaminhamento de material.

É verdade que as hortaliças cultivadas no sistema orgânico são mais resistentes às doenças do que as cultivadas no sistema convencional?
     Há ainda muitas questões a serem respondidas sobre o desenvolvimento de doenças na agricultura orgânica. Os trabalhos de pesquisa que comparam a severidade de doenças de plantas em sistemas orgânicos e convencionais informam que as doenças radiculares são menos severas nos cultivos orgânicos, ao passo que as doenças foliares podem ser mais ou menos severas ou similares, dependendo da reação do patógeno, do estado nutricional das plantas (principalmente o teor de nitrogênio) e das condições climáticas.
      Geralmente, há mais dificuldade de controle de doenças foliares do que das radiculares por meio de métodos biológicos e culturais, especialmente em regiões de clima favorável às doenças. Outro aspecto importante é a diversidade biológica utilizada no cultivo orgânico de hortaliças, que reduz a chance de ocorrer uma epidemia, pois as plantas das diferentes espécies formam uma barreira biológica. Isso não significa que as plantas sejam mais resistentes, mas que existem condições adversas à ocorrência de doenças.

Qual a relação da trofobiose com a prevenção de doenças?
     De acordo com a teoria da trofobiose (trofo: alimento; biose: existência de vida), uma planta torna-se vulnerável ao ataque de uma praga ou patógeno quando há desequilíbrio metabólico que resulta em excesso de “alimento solúvel” disponível para esses organismos nocivos. Esses alimentos podem ser encontrados na forma de aminoácidos, açúcares e minerais não incorporados em macromoléculas insolúveis (proteínas, amido, etc.).
     As causas do desequilíbrio podem ser problemas nutricionais (especialmente excesso de macronutrientes) ou intoxicação em conseqüência do uso intensivo e exagerado de agrotóxicos e de outros agroquímicos. No caso da horticultura orgânica, em que não se usam agrotóxicos, o aspecto nutricional deve ser destacado. Uma nutrição adequada e balanceada, adequada às particularidades da cultura, da cultivar e da fase de desenvolvimento da planta, ajuda a aumentar a resistência das plantas às doenças. É importante salientar que a nutrição deve ser considerada como umas das variáveis que favorecem a sanidade das culturas, dentro do contexto do manejo orgânico pleno, que inclui a escolha da cultura e de cultivares adequadas ao local de plantio, a época correta de semeadura/plantio, espaçamento correto, condução adequada (irrigação, adubação, limpeza, desbrota, etc.), preparo adequado do solo, adubação verde, rotação de culturas, uso de quebra-ventos e cercas vivas, etc.

O que são defensivos alternativos?
     Um dos principais problemas da agricultura orgânica refere-se ao manejo de doenças, pragas e plantas espontâneas. Antes das facilidades para aquisição de agrotóxicos para o controle dos problemas fitossanitários, os agricultores preparavam e utilizavam produtos obtidos a partir de materiais disponíveis nas proximidades de suas propriedades. Com a popularização do uso de agrotóxicos, aqueles produtos foram quase que totalmente abandonados e, hoje, muitos deles são chamados de alternativos. O termo mais adequado é “defensivo biocompatível”, mas é pouco usado no Brasil, sendo preferível o termo “produtos ou defensivos alternativos”, por serem alternativos aos agrotóxicos (fungicidas, inseticidas, acaricidas e herbicidas). Assim, a expressão “defensivos alternativos” relaciona-se a um grupo de produtos utilizados na proteção de plantas em substituição aos agrotóxicos. Nesse grupo de produtos estão incluídos:
 • Agentes de controle biológico.
• Extratos de plantas.
• Biofertilizantes.
• Conservadores de alimentos.
• Alimentos.
• Sais.
• Extratos de algas.
• Óleos. • Extratos de matéria orgânica.
• Extratos de fungos.
• Caldas.

Como agem os defensivos alternativos?
     Como nos defensivos alternativos estão incluídos diferentes produtos, praticamente todos os modos de ação conhecidos de interferência em microrganismos patogênicos para as plantas fazem parte do modo de ação desses produtos. Os modos de ação dos agentes de controle biológico de doenças são:
• Parasitismo.
• Competição.
• Antibiose.
• Predação.
• Hipovirulência.
• Indução de resistência do hospedeiro.
     Alguns extratos de plantas, fungos e de matéria orgânica agem por indução de resistência do hospedeiro, outros por inibição do crescimento e da reprodução dos fitopatógenos. A ação de alguns desses produtos alternativos é semelhante à dos agrotóxicos. Entretanto, uma característica comum dos defensivos alternativos é sua baixa toxicidade para o homem, os animais e o ambiente.

O que é calda borladesa?
     A calda bordalesa é o resultado de uma mistura de sulfato de cobre, cal hidratada ou cal virgem e água. O primeiro a observar sua eficiência no controle de doenças foi P. M. Millardet, em 1882, em Bordeaux, na França (por isso calda bordalesa). A calda bordalesa é utilizada para tratamento preventivo contra doenças causadas por fungos e também para proteção contra infecção por bactérias. Além de controlar diversas doenças, a calda fornece cobre, cálcio e enxofre para as plantas. A calda bordalesa pode ser preparada na propriedade ou adquirida no mercado, e seu custo de produção é baixo em relação aos demais fungicidas.
     A calda bordalesa original apresentava as seguintes proporções: 3 partes de sulfato de cobre, 1 parte de óxido de cálcio e 100 partes de água. Atualmente, entretanto, essas proporções dependem de cada grupo de cultura. Por exemplo, para hortaliças em geral, utilizam-se de 300 g a 1 kg de sulfato de cobre, de 300 g a 1 kg de cal virgem em 100 L de água. Para as cucurbitáceas, mais sensíveis, utilizam-se o máximo de 300 g a 500 g de sulfato de cobre, de 300 g a 500 g de cal virgem em 100 L de água. A pureza dos materiais e o estádio de desenvolvimento das plantas são aspectos importantes a serem considerados: para plantas jovens ou em florescimento, utilizam-se dosagens menores.

Qual o modo de preparo da calda bordalesa?
     O modo de preparo da calda bordalesa é o seguinte: coloca-se o sulfato de cobre em um saquinho de pano, que é mergulhado em 18 L de água, em vasilhame de plástico, de cimento amianto 264 265 173 ou de madeira, por 3 ou 4 horas, até que o sulfato dissolva. A cal virgem deve ser misturada em 2 L ou 5 L de água, de preferência na véspera, e despejada na solução de sulfato de cobre, misturando muito bem. Antes de usar a calda bordalesa, é preciso verificar sua acidez. Para isso, mergulha-se uma lâmina de ferro (pode ser uma faca) no preparado durante 3 minutos e verifica-se seu escurecimento. Se a lâmina escurecer, a calda não pode ser aplicada, devendo-se acrescentar um pouco mais de cal virgem, repetindo-se o teste até que a lâmina não fique escura.
     Se alguém desejar maior precisão, basta utilizar papel ou o pHmetro, para medir o pH, que deve ficar em torno de 7 (neutro) ou ligeiramente alcalino. Recomenda-se tomar cuidado e utilizar os equipamentos de proteção individual recomendados para o manuseio de agrotóxicos.
     A calda bordalesa não pode ser armazenada por mais de 3 dias e não deve ser misturada a outros produtos utilizados em agricultura orgânica. Devem ser observados o período de carência e os intervalos de aplicação tanto da calda bordalesa quanto de outras, como sulfocálcica.
     Como o preparo da calda bordalesa requer cuidados especiais, quem dispuser de facilidades pode adquiri-la em estabelecimentos comerciais especializados. Diversas certificadoras orgânicas estabelecem limites de quantidade de cobre que pode ser aplicado na cultura.

O que é calda sulfocálcica e como é preparada?
     O poder do enxofre sobre as doenças já era conhecido na época dos gregos e romanos. Entretanto, o enxofre foi redescoberto para uso na agricultura por volta de 1800, quando se fez a primeira mistura com cal e água. A calda sulfocálcica é obtida da mistura de enxofre e cal virgem ou hidratada e apresenta ação fungicida, acaricida e inseticida.
 Ingredientes e modo de preparo: 2 kg de enxofre em pó, pecuário ou ventilado, 1 kg de cal virgem e 10 L de água. Em uma 266 174 lata de 20 L colocam-se aos poucos 10 L de água na cal virgem. Essa suspensão de cal deve ser levada ao fogo e, no início da fervura, coloca-se o enxofre e mistura-se durante 1 hora, mantendo a fervura. Deve-se acrescentar água quente para manter o volume da suspensão que, ao final de 1 hora de fervura, estará grossa. Depois que esfriar, a calda deve ser coada em pano dobrado, antes de ser utilizada. A calda pode ser armazenada por 60 dias em recipientes de plástico ou de vidro, tampados e completamente cheios.
     A calda sulfocálcica é altamente alcalina e corrosiva, danificando recipientes de metal, roupas e a pele. Por essa razão, é preciso usar os equipamentos de proteção individual e lavar muito bem os recipientes e as mãos com solução de uma parte de vinagre ou limão para 10 L de água, depois da utilização. Deve-se tomar muito cuidado com os olhos.
     A calda sulfocálcica não deve ser usada em cucurbitáceas (abóbora, abobrinha, melão, melancia e pepino). Dependendo das facilidades, a calda pode ser adquirida em estabelecimentos comerciais especializados.

É preciso tomar algum cuidado especial com os equipamentos de pulverização após a aplicação das caldas?
     Sim. Depois da aplicação das caldas, é preciso pulverizar o trator com óleo de mamona ou com uma mistura de graxa e óleo lubrificante e lavar com sabão ou detergente. Pode-se também pulverizar o trator com uma mistura de óleo diesel e óleo lubrificante e lavar com jato de água. As peças do equipamento devem ser lavadas com solução de vinagre ou suco de limão ou ácido cítrico a 20 %.

O leite pode ser utilizado no controle de doenças de plantas?
     Sim. Embora seja recomendado exclusivamente para o controle do oídio, que se caracteriza por um crescimento branco do fungo na superfície das plantas, o leite deve ser utilizado preventivamente para pulverizar todas as plantas. Recomenda-se fazer a aplicação preferencialmente nos horários de temperaturas mais amenas, isto é, no início ou no final do dia. Embora o leite não exija o uso de espalhante adesivo, os resultados são melhores quando se mistura um espalhante na calda de aplicação. A pulverização semanal de leite cru de vaca, nas concentrações de 5 % e 10 %, auxilia no controle do oídio de diversas culturas.

A urina de vaca pode ser usada no controle de doenças de plantas?
     A urina tem sido recomendada tanto para a nutrição de plantas como para o controle de doenças causadas por fungos nos cultivos de frutas, hortaliças e de plantas ornamentais. Após a coleta, a urina deve descansar por 3 dias em frasco fechado, antes de ser diluída em água imediatamente antes do uso. As dosagens variam de 1 % a 2,5 %.
     Em culturas como o quiabo, jiló e berinjela, recomenda-se uma aplicação a 1 % a cada 15 dias. Como a urina de vaca tem índice salino elevado, sua aplicação em altas concentrações pode causar fitotoxicidade à planta. Os efeitos da urina de vaca são atribuídos a sua composição que contém nutrientes, compostos antimicrobianos e substâncias indutoras de resistência. A urina de vaca é rica em potássio, cloro, enxofre, nitrogênio, sódio, fenóis, ácido indolacético e priocatecol.
     Apesar dos efeitos benéficos obtidos, certos cuidados devem ser tomados com o aspecto sanitário dos animais antes de usar a urina a fim de não contaminar as pessoas com microrganismos patogênicos. Como ainda não há nenhum estudo nessa área, recomenda-se que seu uso seja restrito, evitando usar a urina de vaca em hortaliças de consumo in natura, como morangos, alface e outras folhosas.

O que é controle biológico de doenças de hortaliças?
     A maneira tradicional de conceituar controle biológico de doenças de plantas é considerá-lo como o controle de um microrganismo por meio de outro microrganismo. Entretanto, existem conceitos mais abrangentes, como sendo a redução da soma de inóculo ou das atividades determinantes da doença, provocada por um patógeno, realizada por um ou mais organismos que não o homem. Nessa visão, o controle biológico pode ser acompanhado de práticas culturais para criar ambiente favorável aos antagonistas e à resistência da planta hospedeira ou, do melhoramento da planta para aumentar sua resistência ao patógeno ou adequar o hospedeiro às atividades dos antagonistas. O controle biológico inclui, ainda, a introdução em massa de antagonistas, de linhagens não patogênicas ou outros organismos e agentes benéficos. O controle biológico é mais popular no manejo de insetos-praga.

Já existe controle biológico de doenças de hortaliças em uso no Brasil?
     No âmbito do conceito mais amplo, pode-se dizer que o controle biológico de doenças é amplamente utilizado na produção de hortaliças, no Brasil. Considerando-se, porém, controle biológico como envolvendo, obrigatoriamente, um antagonista, sua utilização é mais limitada, pois existe no mercado brasileiro apenas um agente de controle biológico de doenças devidamente registrado nos Ministérios da Agricultura, do Meio Ambiente e da Saúde. Apesar disso, no mercado são encontrados antagonistas comercializados para o controle de doenças à base dos fungos Trichoderma e Clonostachys.

Como preparar extratos de plantas para o controle de doenças de plantas?
     São diversos os extratos de plantas recomendados para uso em agricultura orgânica, como os extratos de alho, cavalinha, cebola, pimenta vermelha, pimenta-do-reino, eucalipto, fumo, ‘Santa Bárbara‘ ou cinamomo do sul, Tagetes ou cravo-de-defunto, mamoeiro, menta, nim, primavera e Reynoutria sachalinensis. Esses produtos, de modo geral, são preparados na propriedade, mas alguns são comercializados. Como são muitas as formas de preparação dos extratos, sugere-se que se consulte o livro Práticas Alternativas de Controle de Pragas e Doenças na Agricultura5 , em que estão relatadas 90 receitas.


5ABREU JUNIOR, H. de (Org.). Práticas Alternativas de Controle de Pragas e Doenças na Agricultura. Campinas, SP: Emopi, 1998. 115 p.
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